A EXPEDIÇÃO MONTAIGNE: A PARÓDIA PÓS-MODERNA E UM NOVO OLHAR LANÇADO SOBRE A COLONIZAÇÃO

A EXPEDIÇÃO MONTAIGNE: A PARÓDIA PÓS-MODERNA E UM NOVO OLHAR LANÇADO SOBRE A COLONIZAÇÃO

RESUMO - A Expedição Montaigne de Antônio Callado é uma paródia pós-moderna da identidade nacional idealizada na personagem indígena ao longo do romantismo brasileiro. Neste trabalho, analisamos como a obra parodia as narrativas-mestras da literatura brasileira. Para a realização de nosso estudo, nos fundamentamos em HUTCHEON (1991) e FINNAZI-ÀGRO (1991), além de compararmos a obra de Callado a Macunaíma e Iracema. Ao longo da obra, o autor dessacraliza a colonização brasileira que nas narrativas-mestras é representada como salvífica e harmoniosa e questiona a falsa identidade brasileira idealizada no elemento indígena através de Ipavu-Paiap. A obra em análise é um exemplo bastante representativo da pós-modernidade que questiona as narrativas-mestras e busca a construção de uma verdadeira identidade literária.
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A história de nossa literatura se desenvolve dentro de um complexo processo de afirmação de seus valores. Antes, estava sob o jugo do “outro”, tímida, acanhada, sentindo-se inferior, estava presa a um centro que impunha a sua autoridade, seu poder e sua influência.
Dessa maneira, nossa arte permaneceu por um longo tempo a mercê da vontade alheia, tendo que suplantar o orgulho e enxergar sua pátria através dos olhos europeus, como sendo um lugar edêmico, exótico, paradisíaco, e o índio como possível afirmação da cultura nacional, mas que, infelizmente, se tornou um “pastiche” do cavaleiro europeu.
Com o passar do tempo e com o advento do movimento modernista, a construção identitária nacional ganhou destaque e pode representar de forma mais crítica as nossas deficiências do passado, principalmente, no que diz respeito à linguagem antiacadêmica. Sob esse aspecto, temos muitos nomes que aboliram o anacronismo linguístico como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, entre outros.
Por fim, nesse percurso histórico em construção, surge um movimento artístico que, dentro de suas características, vem afirmar a relação entre história e a política, fazendo uma nova leitura de nossas raízes, dos nossos escritos, com o intuito não de determinar uma posição pronta e definida, pelo contrário, veio resgatar o passado de forma híbrida, múltipla, provisória e autoconsciente.
A esse exemplo, a obra A Expedição Montaigne, de Antônio Callado, contempla uma paródia do símbolo nacional elegido pelo romantismo brasileiro: o índio que é retratado em narrativas-mestras, como Iracema e O Guarani, ambas de José Alencar, como civilizado, europeizado, dócil e de fácil convivência com os brancos, e como bravo guerreiro que tem como modelo o cavaleiro medieval, como no poema I – Juca Pirama, de Gonçalves Dias. A obra que analisaremos rompe com essa falsa idealização de quem escrevia sob a ótica do centro e ainda se baseava no “mito do bom selvagem”, carente de salvação e catequização.
O autor em estudo infere em sua narrativa todos os falsos conceitos impostos ao longo da história literária brasileira. Assim, A Expedição Montaigne bebe dos ideais do pós-modernismo. Esta tendência que possui um caráter dialógico é, por natureza, contraditória, uma vez que reconstroem os conceitos, os fatos que se detém ao se instalar neles. Além disso, não busca se constituir em um novo modelo de representação da cultura e da história, como nos diz Hutcheon (1991, p. 21):

Por ser contraditório e atuar dentro dos próprios sistemas que tenta subverter, provavelmente o pós-modernismo não pode ser considerado como um novo paradigma (nem mesmo até certo ponto da acepção kuhniana do termo). Ele não substituiu o humanismo liberal, mesmo que o tenha contestado seriamente.

Com isso, se mostra que a arte pós-moderna está muito mais preocupada em subverter, desarticular a história do que se voltar na constituição de um novo academismo. Nesse sentido, A Expedição Montaigne segue as ideias do pós-modernismo.

Em seu aspecto exterior, poderia parecer que o principal interesse do pós-modernismo são os processos de sua própria produção e recepção, bem como sua própria relação paródica com a arte do passado. Mas quero afirmar que é exatamente a paródia - esse formalismo aparentemente introvertido - que provoca, de forma paradoxal, uma confrontação direta com o problema da relação do estético com o mundo de significação exterior a si mesmo, com um mundo discursivo de sistemas semânticos socialmente definidos (o passado e o presente) - em outras palavras, com o político e o histórico (HUTCHEON, 1991, p. 42).

O principal personagem, o índio Ipavu, rejeita a vida e os costumes dos povos indígenas, após uma significativa temporada no reformatório de índios delinquentes, o Crenaque. Parodicamente, esse lugar representa a educação europeia, branca, que teve por objetivo, durante a colonização brasileira conduzir os índios ao esquecimento de seus costumes para adequar-se aos costumes, língua e religião dos colonizadores. Seu Vivaldo, o carcereiro, amigo e cuidadoso, faz alusão aos colonizadores que mesmo sendo responsáveis pelo extermínio dos povos indígenas, aparecem na literatura ilusionista como aqueles que trouxeram a fé verdadeira, a salvação e o progresso a esses povos. O personagem Vicentino Beirão buscava reconduzir os índios às suas origens:

Era acompanhado do fotógrafo, o jornalista Vicentino Beirão, libertador de silvícolas, antibandeirante, contra-Cabral, não descobridor, que acabava de invadir p presídio. Como uma pororoca resolvida a dar cabo do Amazonas enfiando no rio água salgada e peixe do mar até os Andes, Vicentino pretendia enfiar uma pororoca de índios pela história branca do Brasil acima, para reestabelecer, depois do breve intervalo de cinco séculos, o equilíbrio rompido, certo dia azigado, pelo – as palavras são dele – aquoso e fúnebre ploft de uma Ancara de nau, incrustada de mariscos chineses, enricada de cracas dos índios, a rasgar e romper cabaço e regaço das túrgidas águas pindorâmicas (CALLADO, 1982, p. 11).

Com isso, percebemos que essa atitude é uma forma de repudiar a posição inversa dos escritores românticos, que conduziam o índio a uma europeização. Ipavu gostava da vida de branco e não queria retornar a sua antiga vida, o que mostra a força e a influência da cultura dominante sobre esses povos, que viam no enquadramento aos costumes do centro uma forma de ascender socialmente. Leiamos:

Ipavu não queria por nada deste mundo voltar a ser índio, nu, piroca ao vento, pegando peixe com fecha ou timbó, comendo peixe com milho ou beiju. Queria viver em cidade caraíba, com caos de janela e botequim, de parede forrada, do rodapé ao teto, de brams e antárticas. Índio era burro de morar no mato, beber caxiri azedo, numa cuia, quando podia encher a cara de cerveja e sair correndo na hora de pagara a conta (CALLADO, 1982, p. 13).

No capítulo II, um tronco que veio do império é venerado por Praxedes, personagem que é funcionário do Patrimônio Histórico, o que simboliza a aceitação e submissão a cultura da metrópole portuguesa, já o busto de Montaigne, que PE carregado ao longo da expedição, representa o fardo pesado da ideologia dominante que ainda massacra os índios apesar da “independência” e da existência de leis que o protegem.
O contato com os brancos trouxe para os índios danos mortais, com as quais não sabiam lidar, o que ainda no capítulo III é mostrado no Crenaque. Os índios em miseráveis condições são um reflexo do contato exterminador com o branco, como muito bem podemos ver nesse trecho:

Seu Vivaldo já tinha se habituado com as bostas dos jornais que de vez em quando, por falta de assunto melhor, botavam a boca no mundo com fatos do Crenaque ao abandono, meio em ruínas, o que era verdade, e com histórias bestas de índios também em reinas, acorrentados, morrendo de sarampo, de malária, de tuberculose, do escambau (CALLADO, 1982, p. 22).

Ao longo da obra, o autor enfatiza o conflito entre os povos indígenas e os brancos, conflito este que ao longo da colonização condenou a crença indígena, considerada pagã, e impôs a fé cristão-católica, aversa ao politeísmo e a veneração da natureza, que estavam à margem da salvação na ótica do colonizador. Segundo Ettore Finazzi-Àgro (1991, p. 54),

Não por acaso, muitas crônicas de descobrimento ou de conquistada América contem uma reprovação religiosa que condena as culturas “outras” como diabólicas só pelo fato de elas serem politeístas: traduzida nos termos da “verdadeira fé”, a multiplicidade é, já em si, uma manifestação clara de satã, o aflorar duma corporeidade intolerável que no seu caráter plural, na impossibilidade duma individuação ética, encontra logo a sua definição demoníaca. A terra americana afigura-se assim, desde o início, como uma dimensão infernal, sem deixar de aparecer, desde logo também, como um lugar edêmico, como o espaço desejado para se livrar, enfim, dos vínculos e dos empecilhos da razão: âmbito e equívoco duma natureza que atrai e repele o homem de cultura europeu-convencido, aliás, de que o Paraíso Terrestre se encontraria exatamente onde ele encontra (acha) o novo.

Na contemporaneidade, outras produções literárias fazem intertextualidade com A Expedição Montaigne, como: textos de Werner Zotz, que mostram como os caribas enganaram os índios, espoliando essa etnia com o intuito de tomar-lhe as terras; Moacyr Scliar no livro A Majestade do Xingu narra o trabalho de um médico judeu em favor dos índios que vivem no Parque Nacional do Xingu; Milton Nascimento, Pedro Tiêrra e dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, compusera, a belíssima “Missa dos Quilombos”, a história cantada dos negros no Brasil e em todo o mundo, um texto que, como A Expedição Montaigne, aborda a história dos que ficaram à margem, seu massacre e a falsa ideologia de uma colonização harmoniosa e salvífica, como o amor de Iracema e Martin, Peri e Cecília.
Nesta lógica, “Iracema” de José de Alencar vai se reconstruir num espaço imaginário, utópico, que não reflete sua realidade. Ela é colocada numa condição de ser “endeusado” que não corresponde à sua história:

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo de jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no langue como seu hálito perfumado.

É visível aqui a imagem de uma mulher criada para representar a nossa nação, o Brasil, como algo puro, imaculado, valorizado e adorado, assim como a própria índia, tomada como símbolo de representação nacional. Essa criação irreal nos é contada por Finazzi-Àgro (1991, p. 56) que vê a representação indianista (isso inclui Iracema) como uma imitação, uma invenção baseada no resgate do europeu pelo seu cavaleiro, que figurou como herói pelos seus feitos na Idade Média. É por isso que a identidade brasileira não conseguiu, através de uma releitura de sua história, se configurar, pois seu passado ficou preso, por boa parte, ao olhar estrangeiro, europeu. O autor italiano (1991, p. 57) ainda coloca:

Condição paradoxal, visto que o país reconhece enfim a sua especificidade em relação à Máe-Pátria e à Europa, mas não consegue nomear a sua diversidade senão através duma língua, duma ideologia de “figuras”, afinal, alheias. E a cultura brasileira fica assim suspensa no vazio dessa contradição irremediável, sem conseguir sair do seu Álibi histórico que a obriga a se reconhecer pelo trâmite dos outros.

Dessa forma, o índio brasileiro (o que inclui Iracema) é colocado pela história e pela arte para um lugar marginal, ou ainda mais, para um “algures” sem espaço e nem tempo. Iracema, assim, se constitui num projeto de identificação da nacionalidade brasileira à partir da visão do europeu, que desde a descoberta transmitiu à alteridade uma imagem de índio brasileiro como edêmico, fantasioso, demoníaco, mas também estranho e sem voz própria.
Contrariamente a tudo isso, surge Macunaíma, de Mário de Andrade, que fez de seu personagem uma síntese das etnias, branca, índia e negra para criticar a cultura hegemônica branca, europeia, que colocou o índio no lugar de símbolo nacional, mas nega sua verdadeira história. Macunaíma mostra que a identidade nacional brasileira resulta de uma fusão étnico-cultural das três raças, valorizando a índia e a negra que sempre estiveram à margem. É inegável o brilhantismo e engenhosidade de Mário de Andrade na construção de Macunaíma, pois nos mostrou uma obra com estigma, com marca brasileira, mostrando seu desejo de, através da arte, valorizar e reconhecer o espírito nacional. É nesse sentido que ele, em um de seus prefácios coloca: “O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que eu possa a identidade nacional dos brasileiros (1926, apud BATISTA et al, 1972, p. 289).
Com isso, retrata através de um conjunto de elementos como lendas indígenas, contos populares, costumes e valores, a cultura nacional. Mas, em se tratando de um país de dimensões territoriais enormes, constituídos por diversos povos e ambientes culturais, o que vai lhe marcar finalmente, é sua heterogeneidade étnica, folclórica, geográfica e sociolinguística. Podemos perceber isso no personagem Macunaíma, altamente propenso a mutações, num momento é índio, em outro é negro, noutro é loiro. O caráter heterogêneo se faz notório, também, na variedade da fauna e flora, aos diversos lugares e até nas próprias atitudes do (anti) herói. Mário afirma que:

Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim, desrregionalizava o mais possível a criação, ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea, um conceito étnico nacional e geográfico (Idem, 1972, p. 291).

Sendo assim, o autor transporta o heterogêneo, onde o herói Macunaíma “supera tempo e espaço” (PROENÇA, 1987, p. 161), diminuindo as fronteiras e unindo mais as raças, as subjetividades valorativas de sua terra. Este último, pode ser visualizado num trecho que se faz inúmeras enumerações de sábias existentes na fauna brasileira:

E os sabiás o sabiacica sabiúna o sabiá-pirunga que quando come não me dá o sabiá-barranco o sabiá tropeiro o sabiá-laranjeira o sabiá-gute todos esses ficariam pasmos e esqueceram de acabar o trinado (ANDRADE, 2001, p. 40).

Aqui, busca-se apresentar a variedade (de várias outras multiplicidades) da espécie de nossa fauna de forma a uni-las, de torná-las um conjunto característico e vasto do Brasil e, vale ressaltar, que sem as vírgulas da separação dos nomes, os elementos se tornam ainda mais próximas, ainda mais irmanados.
Desse modo, em A Expedição Montaigne, temos a recriação da história (com h minúsculo) do índio dando a Ipavu características próprias do branco colonizador, ladrão, indelicado, arrogante, cachaceiro, insensível, ridículo, desmontando com a noção de superioridade e inferioridade.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, J. Iracema. Rio de Janeiro: Ciranda Cultural, 1865.
ANDRADE, M. de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2001.
BATISTA, M. R.; LOPEZ, T. P. A.; LIMA, S. de. Brasil: 1º tempo modernista – 1917/29 (Documentação). São Paulo : Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.
CALLADO, A. A Expedição Montaigne (romance). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
FINAZZI-ÀGRO, E. o duplo e a falta: construção do Outro e identidade nacional na Literatura Brasileira. Revista Brasileira de Literatura Comparada, Niterói: Rocco Ltda 1991. v.1.

Por Antonio Roberto Fernandes do Nascimento, Ciro Leandro Costa da Fonsêca e José Carlos Redson.