ENTRE O NACIONAL E O ESTRANGEIRO NO CONTO “NACIONALIDADE”

O conto “nacionalidade” de Alcântara Machado vem narrar a história do imigrante italiano que conserva orgulhoso a cultura e os valores de sua pátria, mas que aos poucos se vê na condição de vincular-se aos costumes brasileiros.
O personagem Tranquillo Zampinetti, natural da Itália, vive um dilema: preservar a velha nacionalidade e, ao mesmo tempo, ter de adequar-se a nova. O patriotismo com a “velha bota” era latente para o deslocado Zampinetti, evidenciado no trecho a seguir:

Da nossa parte perdemos dois cavalos e foi ferido um bravo soldado, verdadeiro herói que se aventurou demais na conquista por solo de uma bateria inimiga. Comunicava ao Giacomo engraxate (SALÃO MUNDIAL) a nova vitória e entoava: Tripoli sarà italiana, sarà italiana a rombo di cannone! [Trípoli será italiana, será italiana a estrondo de canhão!] (p. 61).

Quanto à guerra na Europa, Tranquillo exaltava sua pátria, o seu poderio, os feitos “helenísticos” e o seu desejo de expansão territorial, assim como fizeram as grandes potências nos descobrimentos e em diversas ocasiões de pós-guerras.
Apesar disso, o personagem tinha um grande desgosto por conta dos filhos que absorveram a linguagem brasileira:

Mas tinha um desgosto. Desgosto patriótico e doméstico. Tanto o Lorenzo com o Bruno (Russinho para a saparia do Brás) não queriam saber de falar italiano. Nem brincando. O Lorenzo era até irritante (p. 61).

Sua posição, nesse sentido, demonstrava um posicionamento etnocêntrico, na medida em que mantinha uma cultura estrangeira arraigada à família, sendo que os filhos, especialmente, já estavam adaptados à cultura local. Cumpre destacar, sobre o contexto ficcional, o que Rocha (2004, p. 8) elucida:

De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos deuses, casa igual, mora no mesmo estilo, distribui o poder da mesma forma, empresta à vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente.

O patriarca pertencente à cultura, convencionalmente, do “eu”, tenta indicar e conduzir os filhos para essa linha de raciocínio, para um círculo fechado e homogeneizante. Só que seus descendentes assumem e identificam-se na cultura do “outro”, isto é, tomam a consciência de pertencimento à territorialidade nacional. Os vínculos tradicionais e rígidos estão sendo dissolvidos pela força das circunstâncias, pelos efeitos da globalização,
Assim como Tranquillo, a personagem Frau Wolf, do romance A asa esquerda do anjo, de Lya Luft, também impunha, de forma dura e severa, a linguagem estrangeira, in casu a alemã, como a verdadeira e necessária, mesmo que os diálogos ocorressem em solo brasileiro:

Todos falávamos alemão na casa de minha avó (Frau Wolf), embora, à exceção dela, todos tivéssemos nascido no Brasil. Minha mãe passara dificuldades, mas aprendera o nosso idioma usando um vocabulário simples, errando as declinações, falando com um sotaque do qual eu achava graça, sempre brincávamos por causa dele (p. 20).

Na narrativa luftiana a perspectiva de Frau Wolf invoca uma proximidade com a visão nazista de Hitler: o arianismo e a manutenção incontaminável de uma raça. 
Na contundência habitual do barbeiro, o engrandecimento bachicha: “O assunto já sabe: Itália. Itália e mais Itália. Porque a Itália isso, porque a Itália aquilo. E a Itália quer, a Itália faz, a Itália é, a Itália manda” (p. 62). Esta atitude centralizadora e totalizante é criticada e repensada pelo pós-modernismo, que rompe com esses preceitos e propõe uma fragmentação das estruturalidades histórico-culturais. Nas palavras de Hutcheon (1991, p. 84) compreendemos melhor essa corrente literária contemporânea:

[...] o romance pós-modernista questiona toda aquela série de conceitos inter-relacionados que acabaram se associando ao que chamamos, por conveniência, de humanismo liberal: autonomia, transcendência, certeza, autoridade, unidade, totalização, centro, continuidade, teleologia, fechamento, hierarquia, homogeneidade, exclusividade, origem.

Assim, o discurso do imigrante e, em especial, de Tranquillo Zampinetti é questionado, avaliado. Sua ideologia dominante, à época, fora rompido com a deglutição das marcas identitárias nacionais e, dentro do questionamento pós-moderno, é encarado como ilusória e inadmissível, tendo em vista que não se valoriza a separação entre centro e periferia, entre alta cultura e cultura de massa. Enfim, existe uma completa absorção da diversidade, uma aprendizagem e uma interação das subjetividades.
Entretanto, no decorrer da história Tranquillo, a contragosto, um processo de nacionalização interior, principalmente quando passou a engajar-se na política brasileira, no processo eleitoral, nas preocupações sociais, deixando de lado a guerra europeia e das notícias de sua terra natal. Uma passagem marcante evidencia isso:

Então já dizia em conversa no Centro Político do Brás: - Do que a gente bisogna no Brasil, bisogna mesmo é d’um Bueno governo, mais nada! (p. 64).

Vale ressaltar que o personagem começa a intercalar a vernaculidade brasileira com a italiana, abrindo espaço para o heterogênio. Esse, talvez, foi um dos grandes propósitos de Mário de Andrade, clarividente em sua obra prima Macunaíma, a qual também considerou o imigrante, entre outras variáveis do almanaque humano, como parte constituinte e formadora da identidade nacional. Perrone-Moisés (2001, p. 219) afirma isso dizendo que “o projeto de Mário de Andrade implicava a criação de uma língua literária brasileira, composta de regionalismos, arcaísmos, palavras eruditas, coloquiais, índias, africanas e estrangeiras”.
Com o tempo, Tranquillo percebeu que a vida é muito mais do que conservadorismos, manutenção de patriotismos em terra distante, compreendeu que os novos tempos exigiam novos homens, mais abertos e irmanados.
Assim, Tranquillo caminhou do desapego ao interesse pelo que era brasileiro, num percurso de vivências, de introjeção de outra cultura. E nela se estabilizou, prosperou:

Proprietário de mais dois prédios à Rua Santa Cruz da Figueira Tranquillo Zampinetti fechou o salão (a mão já lhe tremia um pouquinho) e entrou para sócio comanditário da Perfumaria Santos Dumont (p. 64).

Na verdade a terra estrangeira acolheu um filho estrangeiro que, futuramente, seria um filho legítimo:

O primeiro serviço profissional do Bruno foi requerer ao Exmo. sr. dr. Ministro da Justiça e Negócios Interiores do Brasil a naturalização de Tranquillo Zampinetti, cidadão italiano residente em São Paulo (p. 65).

Assim, constitui a história dos personagens, marcados pela fragmentação, pela desvirtualização da raça, da mistura de culturas, no entrelaçamento dos povos.

REFERÊNCIAS

HUTCHEON, Linda. Descentralizando o pós-moderno: o ex-cêntrico. In: __________. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LUFT, Lya. A asa esquerda do anjo. São Paulo: Siciliano, 1991.
MACHADO, Antônio de Alcântara. Contos Paulistanos. São Paulo: Ed. Unesp, 2012. pp 60-65.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Inútil Poesia. São Paulo: Companhia de Letras, 2001.
ROCHA, E. P. G. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 2004.