UM MUNDO DE CRISES: CAOS PÓS-MODERNO

Atualmente, vivemos numa temporalidade, espacialidade e identidade descentradas e sem fronteiras, o sonho dos ‘descobridores’ foi atingido, o que se deseja agora é descobrir algo maior, outros planetas, outras galáxias, nesse impulso e curiosidade sobre-humana.
O que tem convencionado a se chamar pós-modernidade tem sido assim, uma quimera crioula, uma bricolagem rizomática, uma desconstrução não determinista, um recomeço sempre provisório. Mais do que algo sólido que se desmancha no ar, sobre o espelho do paradoxo, a vida pós-moderna é menos ‘fatalista’, não há separação do bem e do mal, do chique e do vulgar, do centro e da margem, do amor e do ódio. Não prospera antagonismos e rivalidade em forma de dualidade, são bem mais férteis os entremeios, entrelugares, casualidades, inconstâncias.
Os precursores, visionários ou esclarecidos desse estado de coisas tais como Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Simmel, Hursserl, Wittgenstein, Lacan, Barthes, Foucault e Derrida, para não citar outros, indicavam em seus estudos que a certa “comodidade” moderna de progresso, desenvolvimento e prosperidade não eram uma situação consolidada e que tempos lacunares e decadentes estariam por vir.
As iniciais maiúsculas da Unidade, Poder, Eterno, Centro, Certeza, Felicidade, Amor, Autoridade, Verdade, Prosperidade, foram destituídas e os homens ficaram órfãos, desnorteados das premissas que ancoravam suas vidas. Passou-se à necessidade de aprender a conviver com as incógnitas, com o desconhecido, com o imprevisível, com as ameaças, com as faltas e ausências (que o digam os psicanalistas e psiquiatras). Tornamos-nos “anjos tortos” num mundo desvirtuado, esquisito, estressante, distêmico e talvez o pastiche, a paródia, o simulacro, o espetáculo, o consumismo sejam algumas das válvulas de escape mais utilizadas.
Entretanto, não há “escape” para tudo e para todos. As crises se multiplicam num planeta globalizado, tecnocientífico, que empurram as pessoas para uma vivência conturbada, fantasmagórica, destituída de sentido, de esperança e de perspectivas de satisfação.
Vive-se um momento de ausência de valores evidentemente marcados no “tudo pode e devo”. A ética está em ruínas, talvez se refazendo! O narcisismo é embriagante e a competitividade e distanciamento das pessoas também. O telejornalismo, por exemplo, vive o show do terror, “sobrevive” por meio das catástrofes, terrorismos e esquizofrenias sociais. O importante é que o show business não pode parar!
O niilismo toma de conta, em consequência do poderio das drogas, da violência generalizada, da falta de lei, das distorções psicológicas que a correria tem imposto aos indivíduos, da incapacidade de liderança e de formulação de ideias e valores, do processo midiático manipulador, da formação do cidadão consumidor em vez do cidadão pensador, dos sonhos distorcidos embutidos no cérebro social, da transformação do “ser” em “ter”, do prazer e do consumo a qualquer custo, do governo “político” prevalecendo ao governo “social”, além de uma centena de outras causas da descrença incrustadas na sociedade atual.
Nesse caos pós-moderno “tudo vale, tudo pode, tudo quero”, como um carnaval multicolor, eclético. É também um tempo de fins, fim da beleza, da forma, do valor, da superioridade. Por aproximação, também é tempo dos “sem”, sem grandeza, sem glória, sem recompensa, sem vantagem, sem garantias, sem privacidade, sem identidade, sem “realidade”, sem esperança. Com tantos espaços vazios é possível inovar, inventar, refazer, remontar, recontar, redimensionar, e nada se instaura, se solidifica, se mantém, ao contrário, há uma constante liquefação, movência, rapidez, concretamente instauradas no nosso dia a dia.