LUÍS GOMES: SEVERINO RAMOS E POETA

Nos porões da história de Luís Gomes, houve cenas, imagens e palavras que ficaram eternizadas. Não tem a ver com a aristocracia ou a fidalguia dessas serranias, mas com personagens simples, mas ricos de espírito e de criatividade.
Essa passagem refere-se a duas figuras emblemáticas da cultura popular de Luís Gomes, inseridas no “baixo clero”, que tomam lugar e altivez (terceira classe do “navio” Titanic) em sua simplicidade e generosidade: Manoel Florentino de Andrade e Sevenino Ramos.
A crônica que citamos remete a década de 70, por ocasião das festividades de Julho. Em Luís Gomes, no bar de Seu Osório, onde havia uma grande palhoça, se reuniam personalidades locais, filhos ausentes, estudantes e curiosos, para se divertir e escutar os discursos poéticos de uma dupla afinada. Manoel Florentino de Andrade, popularmente chamado de Poeta, proferiu:

Eu sou um “tirano a boia”
Besouro do Piauí,
Onde finco meu ferrão
Vejo a matéria cair.
          
O termo tirano a boia é o nome dado, no Pará, ao escaravelho ou rola-bosta. Por sua vez, Severino Ramos, mais conhecido por Ramos, não deixou barato e, de imediato, retrucou com posteriores aplausos e risos:

Você não é “tirano a boia”
Nem besouro do Piauí,
Você é um rola-bosta
Desses besouros daqui.


A arte popular é assim, se expressa com astúcia, com criatividade, com vigor, com emoção. Tira as pessoas do lugar comum e alegra com o inusitado, com força de expressividade, com o entusiamo do contista. Genuinamente brasileira, genuinamente luís-gomense. Uma forma de imortalidade...