O REI DA TROLLAGEM

Otílio Alves Bezerra nasceu em 24 de dezembro de 1908, no município Tauá, no vizinho estado do Ceará. Casou-se com Maria de Sousa Oliveira, natural do Sítio Cocos, Cajazeiras/PB, com quem teve três filhos e dez netos.
Chegou a Luís Gomes na década de 40, depois de trabalhar na construção da Barragem de São Gonçalo, a convite do então Prefeito, Francisco de Oliveira Fontes, na função de motorista. Daí em diante, fixou moradia na Rua Adolfo Paulino, no centro da cidade serrana.
Além de motorista e instrutor, foi eletricista, agricultor, barbeiro, mas também poderia ser chamado de “O Rei da Trollagem”. Era de sua responsabilidade o trabalho de ligar e desligar a iluminação da cidade, na época ainda funcionava a motor à óleo.
Foi um dos primeiros a usar short. Inventava moda. Espirituoso, prático, trabalhador, anedótico, não perdia a piada. Uma vez perguntaram: “Por que esses bolsos desse tamanho?” Respondeu ao estilo de Seu Lunga: “É pra roubar as coisas de sua mãe, seu...!”
Doutra feita, havia uma jumenta que vivia entrando em sua roça e comendo os pés de jerimum. Otílio era homem forte e resistente. Não pensou duas vezes. Colocou o animal nos ombros e foi deixar na casa da dona. Em seguida, retornou às obrigações.
Otílio foi com Antônio Araújo vender rapadura em Pau dos Ferros. Na hora do lanche comprou dois pães grandes, apelidado de ‘morão’. Saiu comendo um e o outro colocou preso à cintura. Ao observar aquele volume, o soldado pensou que seria uma arma e o seguiu. Apressou o passo e o agente da lei também. Logo foi aquele corre-corre. Adentrou como um raio na casa de Chico Torquato, seu conhecido, que questionou: “O que tá acontecendo Otílio?”. Rapidamente respondeu: “É esse soldado querendo tomar meu pão!” (no instante em que o tirava por baixo da camisa). Vendo o acolhimento de pessoas influentes e a revelação do estava oculto, o soldado abortou a investida. Uma situação inusitada e arquitetada por quem adorava brincadeiras.
Enquanto fazia a barba da clientela, o cigarro de fumo grosso do lado para as tragadas corriqueiras. A navalha amolada num pedaço de madeira e a espuma feita com sabonete Lux. De vez em quando reacendia o ‘boró’ com um isqueiro de sete lapadas. De tão grosso, era recomposto por lambidas. E nessa toada, o produto se misturava com o fumo sobre os rostos despertos sobre a cadeira rebaixada do barbeiro.
Um dia estava ele consertando o jipe de Dr. Pereira e nisso vinha Antônio Cavalcante da lagoa, onde criava um cavalo. Como gostava de viajar de carro disse: “Otílio, você vai pra onde?”. Sabendo desse desejo incontido conjecturou: “Rapaz, vou já no Uiraúna testar o freio desse carro”. Disse exatamente aquilo que ele gostaria de ouvir. Se interessou. Então, Otílio lhe disse: “Senta aí Antônio no carro que eu vou tomar um banho aqui e saio já pra gente ir”. Deixa que Otílio “bateu a enxada” e desceu pra roça. Enquanto isso, o outro ansiosamente esperava, esperava... Já eram duas da tarde, a capota do jipe de plástico encerado esquentava ainda mais, resolveu procurar o tratante, solicitou à esposa: “Maria, e cadê Otílio?”. Melhor se não tivesse questionado, quando foi alertado: “Ah, Antônio, se você for esperar Otílio pode desistir, ele tá na roça”. Saiu bufando...
Certa vez, Paulo de Basa foi cortar o cabelo e levou apenas 50 centavos, dizendo que pagaria o restante depois. Sem problema. A tesoura cantava! Ao fim, apenas metade havia sido aparado. Paulo questionava: “E a outra metade?”. O barbeiro propiciamente dizia: “Quando você trouxer o restante do dinheiro faremos a outra metade”. Quando trabalhava no motor da energia, os meninos vinham avisar dos fios que se chocavam e do consequente curto. Importuno, jogava um balde de óleo queimado nos meninos que iam embora como um raio. Em retaliação destravavam a espreguiçadeira e ao sentar-se era aquele tombo.
Houve uma vez que encomendou a Zé Bernardo uma carrada de cupim para transportar para a Bahia, uma vez que Chico Fontes tinha terras por lá com tanta madeira, que homem no machado não dava conta do serviço. Queria levar a praga. Zé trabalhou um mês para encher um caminhão. Depois viu todo o trabalho perdido, visto que tudo não passava de uma pegadinha...
Essas são apenas algumas histórias de muitas outras que marcaram a trajetória de vida de um homem alegre e brejeiro.
Otílio além da aparente fisionomia séria e aplicado aos ofícios da vida, tinha esse lado curioso, fluído, descontraído, divertido, talvez uma forma de quebrar a rotina do dia a dia, da pequena e tranquila Luís Gomes.
Dizia Shakespeare: “A alegria evita mil males e prolonga a vida”. Por isso, quiçá, tivera uma vida longeva, em terras de Santana, vindo a nos deixar em oito de janeiro de 1.999.
Agradecimentos:
         Jackson Alves Bezerra.

         José Ferreira Filho.