A ALMA É IMORTAL

Vivemos um mundo de grandes possibilidades, muitos caminhos e decisões importantes sobre nossas vidas. Ao que se percebe, grande parte dessa enorme “aldeia global” tem enveredado por estradas de desilusões, infelicidade e uma ampla desvalorização do sentido da vida.
A vida moderna, massificante, instantânea e a onipresença da cultura narcisista de massa, para não se estender, vem produzindo mudanças profundas em nossos comportamentos e atitudes... Parece que nunca estamos satisfeitos – vorazes –, sempre um vazio que não se preenche, que não para de crescer.
Na atual organização de vida, principalmente a ocidental, a produção histórica construiu um cenário amplamente tecnológico e programado, numa realidade cada vez mais decadente, que fragmenta crenças e amplifica o ecletismo, o que traz a sensação de vazio e desnorteamento, surgindo como válvula de escape à busca pelo prazer fútil, pelo consumo desmedido e pelo espetáculo na tentativa vã de abrandar ou controlar o caos.
Nessa lógica, nos prendemos ao visceral, à objetividade, à celeridade, ao contínuo caos existencial. Prisioneiros de um estilo de vida que esvazia e intoxica nossa essência e desvirtua o que há de melhor no ser humano.
Esvaziamos e desestruturamo-nos em favor de uma metodologia ultramoderna que absorve suas energias sem, na mesma proporção, devolver um substrato revigorador. Temos quase tudo e não temos quase nada. Dentro de um mundo infindo de possibilidades ainda nos sentimos, intensamente, vazios e, por vezes, inertes, desconfigurados.
Tentamos preencher nossos vazios com coisas superficiais como a virtualidade, a luxúria, a bebida, o status, o prazer efêmero, o gosto pela forma do que pelo conteúdo, o espetaculoso que prevalece sobre a simplicidade, a materialidade ao invés da espiritualidade... Passamos a perder a razão do coração...
A massificação sem reflexão é, inclusive, uma forma de deformação de nossas identidades. Por meio dela vestimos, comemos, pensamos, consumimos, valorizamos a opinião, muitas vezes, do senso comum (levado pelas multidões), mais uma vez reforçando a proliferação de zumbis sem código próprio, emaranhados na falta de posição, na embriaguez dos delírios.
Entretanto, não há “escape” para tudo e para todos. As crises se multiplicam num planeta globalizado, tecnocientífico, que empurram as pessoas para uma vivência conturbada, fantasmagórica, destituída de sentido, de esperança e de perspectivas de satisfação.
As pequenas coisas passam desapercebidas, o luar, o sorriso de uma criança, o vento que bate no rosto, o caminhar pelas calçadas, o estar só que alimenta... Somos levados a “pensar grande”, em “ser grande”, a viver produtivamente, a ter infinitamente, mas se o significado maior da vida, o amor, não for a bússola de nossos valores e preferências, tudo se desmancha com o tempo, perde o brilho e a grandeza, se torna ignóbil.
Em momento algum a vida deveria ser um peso, algo desprezível, deplorável, mas efetivamente uma dádiva, formas infinitas de admiração, encantamento, felicidade. Temos tanto o que aprender com as crianças, né?
Mas nem tudo são 'nuvens negras', porque o amor é a saída. Ao que tem se prendido? O que tem dado mais atenção? O que merece mais o seu precioso tempo? Roupas apenas servem para cobrir o corpo! Dinheiro se limita a seu mero significado. Joias, na verdade, são as pessoas na sua infinita capacidade de amar, servir e significar nossas vidas. O belo não se limita aos manequins ambulantes, corpos torneados e deslumbrantes...
Por amor, só por amor, por tanto amor, a imortalidade se torna possível. Ultimamente, o amor tem enfrentado uma competição árdua com as invenções utilitaristas do homem, porque o amor requer tempo, contemplação, pureza, dedicação, bondade. Então, “purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo” (Pitágoras).