A HISTÓRIA DO JEEP E OUTRAS

Com vistas ao passado, do provérbio citadino, conjecturam uma famosa resenha a respeito dos Senhores Izidro Pereira, Antônio Aquino e Gilberto (genro) de Camilo.  Há muitos anos, Luís Gomes não tinha nenhum “carro de linha”, mas havia pessoas interessadas em fazer viagens para Sousa, Pau dos Ferros e Cajazeiras.
Pois bem! Vamos aos fatos que remetem a década de 50. Antônio Aquino, com espírito empreendedor, se dispôs a comprar um jeep para atender a população, mas teve que pegar dinheiro emprestado com Izidro. Este prontamente cedeu ao pedido. Antônio Aquino comprou o automóvel e arrasou, ia tudo “de vento em popa”.
Gilberto vendo o sucesso do conterrâneo, disse: “Vou comprar um jeep também”. Contactou empréstimo a Izidro, mas antes disse ao agiota que iria a Juazeiro do Norte escolher o modelo, depois pegaria o dinheiro. Enquanto isso, Antônio Aquino, a par da situação, sentindo sua “linha” ameaçada, disse a Izidro, astuciosamente: “Eu num vinha pagando o empréstimo, certinho, todo mês?” O especulador não teve dúvidas: “Ave Maria, o nosso negócio tá mais justo que boca de bode”. Antônio Aquino prosseguiu: “Olha, vou passar de dois a três meses sem pagar, porque o negócio de viagens não tá dando não!”.
Quando regressou Gilberto de Camilo, foi pegar o cash, para comprar um jeep na cor amarelo. Seu Izidro, porém, esmoreceu. Argumentou que era um homem muito supersticioso e que por conta de um sonho não poderia mais emprestar a quantia solicitada.
O sonho era o seguinte: “Eu sonhei que estava de frente para um açude e vinha um cachorro com quilo de carne na boca. Ao olhar para dentro d´água ele viu outro cachorro também com um quilo de carne na boca. O que o animal faz? Deixa a carne no chão para tomar a do outro, e nisso vem um terceiro cachorro e leva o pedaço que ele havia deixado no chão. E nisso a carne deu em nada. Portanto, por causa desse sonho não vai dar mais certo. Pode ir embora!”.
E assim, Antônio Aquino, estrategicamente, evitou a concorrência. Uma jogada de mestre para alguns. Uma malandragem para outros. De qualquer forma, uma boa história para o leitor.
Ademais, a vida seguiu o seu curso, cada um na sua lida. Izidro Pereira continuava com a prática de empréstimos, pois recursos não lhe faltavam. Por volta de 1958, assíduo ao pequeno comércio de Honório Bernardino, na pacata terra de Bom Jesus, de vez ou outra incentiva o comerciante a avolumar, expandir os negócios.
Finalmente conseguiu convencer o amigo a aumentar o estoque e, consequentemente, a clientela da zona rural. Só que o mercador não tinha capital para tal desígnio. Ainda mais naquela época de tempos difíceis. Izidro muito solícito, incentivador daquela ideia, por sua vez, se prontificou a emprestar o dinheiro necessário para os melhoramentos da venda, desde que fosse recebê-lo em sua casa, em dia e horário predeterminados.
No dia combinado, Honório chegou à casa de Izidro atrasado, por conta dos atendimentos mercantis. Eufórico, disse: “Eis-me aqui como combinamos”. Izidro balançou a cabeça, contrariado. Era muito meticuloso nos seus negócios. As tratativas tinham um ritual que não poderia ser quebrado, dentre elas, a pontualidade. Em seguida, sentenciou: “Você quebrou o trato para vim buscar, imagine para vim deixar!” Honório tentou justificar, argumentar, na hipótese de se reconsiderar. Inútil. Resoluto. Intransponível.
Um pequeno atraso rompeu o acordo. Santa pontualidade bretã. Se tempo é dinheiro, Izidro levava o negócio ao pé da letra.
As sutilezas e surpresas da vida ocorrem assim, em vãos momentos. “De repente, do riso fez-se o pranto” (V. de Morais), da tempestade a calmaria, da lucidez a ebriedade.
E não para por aqui! Relata-se também que Seu Izidro Pereira recebeu a visita de um conhecido, que vendo os porcos pediu: “Seu Izidro, me dê um porquinho desse pra eu criar “de meia”? “Leve homem. Hummm! Pode levar!”. O cabra levou o porco, já gordo, matou e veio deixar a banda dele na mesma hora. Seu Izidro, boquiaberto, disse: “Hummm! Você é intiligente, né!”.
Noutra cena, um sujeito solicitou dinheiro emprestado. Seu Izidro disse que viesse em dias tais e que trouxesse dois avalistas. Quando foi no dia, o camarada veio. “Pronto, seu Izidro, eu vim sobre aquele negócio”. “Hummm. Você trouxe o nome dos avalistas?” “Trouxe Seu Izidro!” “E quem é?” “É a Dr. Jáder e Guilherme Rocha”. Seu Izidro finalizou: “Hummm. E quem vai avalizar por eles?!”.
Certa vez, Arnon contou que foi comprar coco a Seu Izidro, no local conhecido como Açude dos Coqueiros, terreno que ficava próximo à casa do agiota. O velho não pode ir, dizendo: “Vai Arnon e tire os cocos lá e traga!”. E foi. Chegando lá começou a derrubar. E o velho de lá escutando. Cada coco que caía Seu Izidro anotava numa caderneta.
E nisso, Arnon pensado consigo: “Destá, eu vou pegar esse velho!”. Largou a faca e derrubou um cacho. Mal sabia ele. Num “pou” da pancada no chão, Seu Izidro anotou, resmungando pelo canto da boca: “Hummm. Um cacho”. Quando Arnon chegou, foi fazer a conta, certo de passar a perna no pobre inocente. Deu com a cara na parede. “Hummm, Seu Arnon, mas teve um cacho pelo meio!”. Como diz o ditado: para esperto, esperto e meio.

Texto original do livro “Luís Gomes: a terra e o povo de Luís Gomes entre prosa e poesia”.