NOSSAS TRADIÇÕES

Por serranias, chapadas e grotões, o povo canta as suas tradições, com orgulho e muita emoção, a vida aqui tem mais comunhão. É assim que a comunidade constrói sua identidade, seus valores e seus costumes.
A terra de Bom Jesus também tem as suas, um povo festivo. De imediato vêm à mente as Tertúlias, em especial, aqueles que aconteciam na casa de Seu Zé de Fernando (José Fernandes Geraldo). O Reisado de décadas atrás, com música, dança, versos e a venda do boi. Os bailes no Mercado Público, a jovem guarda, a música romântica, a purpurina, as lantejoulas, o blush no rosto marcado, os vestidos longos e rodados, os brincos chamativos, os olhares curiosos, o jeito inibido, o beijo discreto, as rodas de conversa, os adolescentes observando o bailar dos casais, cabelos elaborados ao estilo Nick Rhodes, luvas que se estendiam até os cotovelos, os laços em forma de borboleta. Enquanto isso, a música de Paulo Diniz, “Pingos de Amor”, embala os corações:

(...) Alguma coisa me lembrou você
E veio a noite, namorados se encontrava
E eu estava só
Vamos ser outra vez nós dois
Vai chover pingos de amor.

Num piscar de olhos o cantor e tecladista muda a cadência e o público se esquenta com “Eu Só Quero Um Xodó” de Dominguinhos, ao ritmo de seresta:

Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só.

A Festa de Caboclos, de homens adornados, enfeitados, o ritmo do forró tradicional, a pisada firme no chão, a dança em roda, a representação policromática, a malhação do Judas. Há também a festa de fogueira e balão, o som dos fogos e rojões, cheiro do milho assado, um viva a São Pedro e São João! O Maracatu que, de acordo com Franklin Jorge (2015, p.29), tinha nos subúrbios de Luís Gomes, na Rua do Emboca, uma conotação profana ao som de foles, para desconstruir a soberba dos abastados:

Maracatu, maracatu, maracatu,
Quando for a meia-noite.
Tire a roupa e dance nu.

Por sua vez, a religiosidade está no sangue. As pregações, as procissões, as penitências, o confessionário. A primeira sexta-feira do mês. Festejos, leilões. As missões eram um momento de incêndio dos fiéis. A primeira vez que Frei Damião veio a Luís Gomes foi por volta de 1947, juntamente com seu fiel companheiro, Frei Fernando. Toda a região vinha ouvir o santo nordestino. Anos mais tarde, o profeta do Sertão retornou a Bom Jesus. Nessa passagem, conta-se que um devoto perguntou ao Frei como seria o inverno. Ele não hesitou: “Daqui pra frente será conforme ao tamanho da roupa das mulheres!”.
As crendices populares também são memoráveis. As experiências de inverno ainda resistem com sua magia e encanto. Através da observação de certos fenômenos era possível supor a qualidade do período chuvoso. Veja alguns sinais de “bom inverno”: chuva no dia de São João (24 de julho); tempo carregado em Santa Luzia (13 de dezembro); primeira lua de janeiro nascer por trás de uma barra; mandacaru segurar a carga; a catingueira produzir muita resina amarela; quando o João-de-barro faz muitos ninhos; ocorrência de redemoinhos no final do ano; se a Estrela-d’alva viajar para o norte; se chover no dia de Nossa Senhora da Conceição (08 de dezembro).
A lida do agricultor era uma cinematografia diária. O tinir da enxada, o ronco do trovão, a peleja diária, a coivara e o roçado, não era mole não. Cada gota de suor, de sol a sol, esperança de uma vida melhor. Da ancoreta ao cambito, da cuia ao jiral, da “arupemba” ao caçuá, da cangalha ao fogão de lenha, do coice da mula ao canto do sabiá, um cenário familiar. As “bulandeiras” e as casas de engenho eram a festa da fartura, da colheita e da produção da mandioca e da cana de açúcar. O trato da boiada e o aboio norteador, a criação da bicharada também tinha seu valor. As safras de caju, pinha, manga, graviola, banana. A colheita de algodão, a cata e a debulha do milho e do feijão, as calçadas eram a internet e a televisão. Não faltavam estórias de “trancoso” e todo tipo de superstição.
Das escolas alunos alinhados, de costureiras de mão cheia, das praças namoros arrochados, dos desfiles a arte debruçada, do futebol o torrão e seu reinado, e Pedro de Ângela nas tapas enrolado. É que o sangue, às vezes, subia à cabeça.
Tempos em que brincar era comer fruta fresca, mesmo que roubada. Nada escapava a criatividade e a engenhosidade. Bila, bambolê, bilboquê, baladeira. Pipa, peteca, pelada. Bola, bolinha, bolão. Carrinho de lata do João ou mesmo rolimã.
Não havia essa história de selfie, ciberespaço, redes sociais, videogames, tablets, smartphones, comércio eletrônico, mundo virtual. TV era coisa rara e em preto e branco. E que bom que foi assim!
Brincar de “Cai no Poço” era uma delícia. Pera, uva, maçã ou salada mista? Se a resposta fosse pera era um simples aperto de mão no menino ou menina escolhida. Se fosse uva, um abraço. Se fosse maçã, um beijo no rosto. Já era melhor. E se a pedida fosse salada de mista, nesse caso poderia ficar com tudo: aperto de mão, abraço e beijo no rosto.
Jogar bola e brincar da manja eram as preferidas. Certa vez, aconteceu um caso que mostra o quanto os adolescentes valorizavam as brincadeiras. A garotada jogava na Rua Honório Bernardino, com a famosa bola vermelha Canarinho e as traves feitas de paralelepípedo. Dos jogadores é possível rememorar Bergue, Agalberto, Fantico, Cosme, Lorim, Rodrigo, Roberto, Carpé, Diego, Vanim de Chico Mulato, Valentim. Numa das jogadas Agalberto recebeu o passe e chutou de levinho para fazer o gol. Enquanto isso, Fantico veio em disparada para impedir o tento, mas ao invés de chutar a bola, deu um bico na pedra que rolou uns dez metros abaixo. Seguramente, não era possível reconhecer se aquilo ainda era um dedão.
Ainda tinha o telefone de lata, o futebol de botão e a queimada era uma diversão. As brincadeiras e cantigas de roda são imorredouras, por expressam a beleza do imaginário, as tradições orais, a representação simples da vida, a amizade, a sensibilidade, o lúdico, o folclórico e as histórias de trancoso.
“Ciranda, Cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar”.
“O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou.
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou”.
“O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada...”
“Atirei o pau no gato tô tô
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá...”
“Terezinha de Jesus de uma queda
Foi-se ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão...”
“Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Para o meu amor passar...”
Fonte: Arquivos Públicos da Internet.
             
Quando o açude sangrava era tempo de festa. As matas, riachos, o Poço do Padre e as cachoeiras convidavam a um passeio ecológico, com a companhia dos macacos soim. Só se ouvia o barulho de pedras nos cocos catolé. O velho pé de Cipreste, na esquina do Mercado, que era uma simbologia do bucólico e das origens da terra.
As festas eletivas o Cancão piava, na tática de guerrilha a luta era travada, os jingles feriam até a reputação, e muitas vezes o chumbo cortava na imediação. Quando o tiro cortava, o comício era desfeito, ninguém queria perder, a chance de ser prefeito.
Entretanto, como dizia Seu Quinco Barbosa: “Entre mortos e feridos escaparam todos!”.