AMO LUÍS GOMES

Amo a quem se ama a si mesmo, com brilho nos olhos, ao acaso, a esmo e com devoção. Um sentimento sem fronteiras, capaz de amar as virtudes e os defeitos, de querer bem sem receios, de peito aberto se jogar.
Serra do Senhor Bom Jesus, viver-te é pertencer e sermos um só. Quem fala de mim refere-se a ti; quem te busca, encontra a mim. Nossas vidas são marcadas pelos passos no chão, pelas pessoas com as quais convivemos, pelos saberes e sentimentos que cultivamos. Não há fogo cruel ou lâmina afiada, não há tempo longínquo ou praga mal-assombrada que separe o nosso afeto, a centelha foi criada indestrutivelmente.
Dizia Sêneca: “Ninguém ama sua pátria porque ela é grande, mas porque é sua”. Luís Gomes, pertencemo-nos para sempre! Certamente diria a mesma coisa, talvez até com maior empolgação, estimados filhos, entre eles, Padre Osvaldo, Agamenon Fernandes, José Hildo Fernandes, Alsenir Pereira, Socorro Silva, Adolfo Paulino, João Claudino Fernandes, Zéu Fernandes, Chico Pascoal, Seu Dedim e Dona Chiquinha, Seu Quinco Barbosa, Dona Santa Rosa, Cidinha Pascoal, Gaudêncio Torquato, Joca Claudino e Francisquinha, José Procópio, Seu Tintim, Vicente Bevenuto, Professora Mamede Edvirgens, Adjunto Carlos, José Saturnino, Zé Vitor, Hélio Fernandes, Zé Lucas, Dona Cidinha, Dona Basa, Joanita, Manoel Martins, Aécio Batista, Xeba, Vicente Feliciano, Mestre Tenga, Chico Dubas, Epifânio Queiroz, Antônio Cavalcanti e uma infinidade de filhos presentes e ausentes dessa terra.
Quando distante de ti, minh’alma compadece e o desejo se comprazia em apenas ver-te. Como disse Dona Cidinha, “Tenho com você Luís Gomes, um caso de amor”.
Da mesma forma, não poderia esquecer o fervor e a veneração de Padre Osvaldo por estas plagas abençoadas. Sempre tinha palavras de altivo amor e respeito declamado por Luís Gomes. Lembro-me de ouvi-lo dizer, por mais de uma vez, que esta cidade era sua casa e o povo luís-gomense sua família.
Mesmo nos lugares mais exóticos, de requintada luxúria, de deslumbres imperiais, da minha mente se faz imorredoura, insubstituível. Sou um cosmopolita em que o centro nunca deixará de ser a terra que me viu nascer, de onde aprendi os sons e as letras, de onde vi os primeiros raios de sol e os cantos dos pássaros. Não há como não se apaixonar...
Vejo meu pai falar desse lugar com tanto entusiasmo, mesmo com as crises suscetíveis e injustiças que violam a honra de concidadãos, o brilho não se perde, porque a esperança e o otimismo vão à frente, em passos mais apressados.
Por outros sertões veredas tenho o orgulho e a alegria de mencionar a terra amada, terra querida. Aqui, a vida tem mais vida, nossas conversas mais sabores. O tempo que voa, aqui é companheiro fiel, aquece o espírito e faz da vida um pequeno regaço. Luiz Gonzaga, apoiado nessa mesma conjectura, disse em sua canção:

Lá no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltar pro meu sertão.

A bússola de nossos corações aponta para um lugar de grande magnetismo, um cenário que evoca a candura de nossa infância, da irmandade, da fé inaugural, das experiências ‘iniciáticas’ da formação do caráter e da perseverança.
Aprendemos a gostar de um lugar não somente pela imponência econômica, cultural, militar, mas pela ligação umbilical, de identificação, de amor sem vaidade, que floresce com o tempo, mesmo por entre as pedras, mesmo através das coisas mais simples. As memórias conectam o filho e a manjedoura. Píncaro. Quase sem querer, diria Renato. Naturalmente. O amor à terra natal é um amor sem contrato. Como canta Jota Quest, “a nossa liberdade é o que nos prende”.
Sua história é também, em parte, minha história. Assim, igualmente, o é em suas conquistas, dificuldades, perdas, sonhos, até no desejo de construir um ambiente saudável e cheio de motivos para sorrir e cantar.
Não aprendemos a amar só o belo, o justo, o perfeito, porque as cidades são reflexos e, em certa medida, espelhos de seu povo, historicamente contraditório, constituindo um enredo que permite o conflito e a superação, o vilão e o herói.
Homens e mulheres da Serra de Santana, um povo forte que tem gana por dias melhores, tem urgência por melhorias de vida, sedução pela arte, fome de cultura, sede de encantamento. Todos querem mais. Como dizia Ariano Suassuna, o povo cansou de roer o osso, o povo agora quer o filé.
É possível. Se essa força, entusiasmo, criatividade, motivação for canalizada, num processo interativo e democrático, o amor vencerá o mal e o destino se tornará épico e vindouro para todos. Para isso, o poder precisa, de fato, emanar do povo.
Até que ponto pode-se sonhar com essa utopia? Não existem, na vida real, super-heróis, mas existem homens que juntos podem gerar profundas revoluções. Quem não acredita que é possível, não será capaz ao menos de tentar.
Todos nós queremos que um dia, muito em breve, Luís Gomes seja a verdadeira mãe que os seus filhos anseiam, protetora, defensora, desenvolvimentista. Apesar dos pesares, em momentos de íntimo sentimento, não há luís-gomense que não diga consigo mesmo: “Luís Gomes, eu te amo!”.
Reafirmo ainda, já tomado por alguma emoção, que o respeito e a valorização do berço pátrio se avivam sobremaneira quando atinados estão aqueles a quem de seu ventre nasceu ou se fez pertencer. Bem dizes Raul Pompéia: “Quanto melhor conhecermos a nossa terra, melhor saberemos amá-la”.
E para os amantes desse lugar, nada melhor que sentenciar esse afeto com as palavras cálidas de Adolfo Paulino (1940, p.38-39), em tanto tento e sincero, quando se refere, com ávida inspiração, sobre “O Amanhecer em Luiz Gomes”:

Os galos anunciam o despontar da manhã.
Nos arvorêdos verdejante que circundam a Cidade, os pássaros entoam canticos maviosos, anunciando e festejando também, a aproximação do dia.
Ao nascente, por entre às Serranias longínquas, dominando a amplidão do universo, surge o sol encandescente. Os seus raios luminosos e beneficos, galgam, antes que em muitas outras partes a altitude elevada, em cuja culminancia panoramica e deslumbrante, ergue-se a modesta Cidade.
Agora, rompida a aurora, inicia-se o labor diário, que outro não é, senão o cultivo da terra, de cujo solo, quase todos os de Luiz Gomes, auferem em recompensa, o que é necessário, para um viver modesto e feliz.
É pois, sob o cantar dos galos e o gorgear das aves, que surgem ás manhãs em Luiz Gomes, hora propicia para o inicio de sua vida laboriosa e fecunda.