CAPTUREM O REI DO CANGAÇO

Lampião nasceu em Serra Talhada, estado de Pernambuco, provavelmente em 04 de julho de 1898. É um personagem marcante da história do povo nordestino, um homem que rompeu a barreira da realidade, tornando-se um cangaceiro lendário pela coragem, pelo temor, pelo código de conduta e de vida singular.
Reinou na Caatinga com valentia. Banditismo no estilo fora da lei. Diziam que tinha um pacto com o diabo. Diziam que possuía poderes sobrenaturais por conseguir despistar-se, com maestria, dos perseguidores e da volante. O modus vivendi era revolucionário, justiceiro, arrebatador, temerário, devastador. Entretanto, foi um dos primeiros a questionar e combater a arbitrariedade e concentração de poder no sertão brasileiro.
Uma história de muitos contos, rimas, crônicas e representações midiáticas. Contudo, existe uma que poucos chegaram a conhecer. Até mesmo Lampião e seu bando ficariam surpresos, à época, se tivessem informações sobre tamanha audácia. Um grupo de civis luís-gomenses resolveram capturar e prender o temido e destemido Lampião. Era preciso sangue nos olhos...
Assim sucedeu. Lampião chegou às imediações de Fazenda Nova, município de Luís Gomes, atacou a casa do Coronel Antônio Germano, capturou o seu pai, o velho Moreira e exigiu um resgate de 50 mil cruzeiros, caso contrário o mataria. Antônio Germano morava em Luís Gomes. Sabendo da situação do pai e que o bando de 73 bandidos estava quebrando a casa grande de Fazenda Nova, formou, muniu e encorajou 17 homens de grande ousadia, mesmo que paisanos, para dá um basta naquela situação terrível. Vejam quanto entusiasmo: 17 paisanos contra 73 pistoleiros experientes e sanguinários.
Dentre os civis com a árdua missão de enfrentar o mais valente e destemido cabra do sertão estavam um soldado e um cabo da polícia, chamado Aureliano, Seu Tenga, Zé Vitor, Manfredo, Agemiro, Mané Chato e mais uma turma que formou um total de 17 corajosos.
Saíram dez e meia da manhã. Um dia de domingo, no mês de maio. Todos devidamente armados com espingardas, bacamartes e pistolas de dois tiros, daquelas que quebravam no meio. A turma desceu na dita estrada antiga, que aponta no sentido de Mossoró. Até aquele momento todos estavam tranquilos e convictos do desígnio a que foram confiados.
Quando chegaram próximo das terras de Zé de Anja, mesmo antes de iniciarem a descida da Serra, havia um velho angico próximo à estrada, que pendurava uma galha que sombreava o caminho. No instante em que passavam no local, como que um prenúncio talvez, surgiu, inesperadamente, uma forte ventania. Esse fato já deixou o agrupamento cismado.
Logo em seguida, não se sabe para o bem ou para o mal, o forte vendaval quebrou a galha do pé de angico que caiu, de súbito, nos pés dos homens. Mané Chato desesperado gritou: “Abra retaguarda!”. Assustados e desorientados correram para onde o nariz apontava, numa velocidade supersônica.    
O mais pouco que correu foi bater na Gameleira. Lá tinha um cajueiro na frente da casa de um senhor, chamado Vicente. Na disparada um dos homens bateu de frente com a árvore dizendo: “Abra a porta João Antônio! Abra a porta João Antônio! Pelo amor de Deus”. Para se ter uma noção do quanto estava aterrorizado, a pessoa por quem bradou pedindo abrigo morava em outra direção, no alto da Serra de Luís Gomes, muito distante de onde estava.
De qualquer forma, aqueles homens tiveram a disposição, a iniciativa de realizar algo que poucos se disporiam. Tamanho era o pavor de enfrentar o Rei do Cangaço. Não se sabe, não há registro se essa ação teve alguma influência na desistência do bando em subir a Serra de Luís Gomes. Há quem diga que isso não ocorreu pelo respeito de Lampião pela padroeira, Senhora Santana.