LENDA DO LETREIRO

Desde pequenos ouvimos histórias sobre Lobisomem, Bicho-Papão, Mulher de Branco, Mula Sem Cabeça, Caipora, Saci Pererê, entre tantas outras. Talvez essa fascinação do homem pelo maravilhoso seja resultado de ligações seculares com a Criação do Universo, com o Paraíso Perdido, com os fenômenos naturais, com as formas primitivas.
Pode ser a tentativa de explicar as origens, as manifestações oníricas, cabalísticas e esotéricas. Ou quem sabe, o desejo de suplantar a realidade pueril, o sentimento de inferioridade, a estrutura psicológica.
As lendas, mitos e relíquias textuais tem origem na tradição oral, como é o caso da Bíblia. Através deles é possível celebrar e unir um povo, uma comunidade em torno de histórias carregadas de encanto, sentimento, literalidade. Delgado (2003, p.14) amplia esse entendimento:

Sua contribuição maior é a de buscar evitar que o ser humano perca referências fundamentais à construção das identidades coletivas, que mesmo sendo identidades sempre em curso, como afirma Boaventura Santos (1994, p. 127-9), são esteios fundamentais do auto-reconhecimento do homem como sujeito de sua história.

As narrativas orais se engendram no seio comunitário como um patrimônio coletivo que, ao mesmo tempo, produz entre os membros uma força coesiva de memórias e lembranças identitárias.
Da mesma forma, não é preciso forçar a memória para lembrar-se de histórias sobre mulheres encantadas. As famosas sereias da “Odisseia” de Homero, em que Odisseu, o personagem principal, para não ser hipnotizado e nem seus homens, pelo canto das sereias, coloca cera nos ouvidos dos marinheiros e amarra-se ao mastro do navio, numa estratégia de sobrevivência e de coação dos desejos carnais.
A literatura clássica cita o nome de algumas sereias da mitologia grega: Pisinoe (Controladora de Mentes), Ligeia (Doce Sonoridade), Thelxiepia (Cantora que Enfeitiça), Leucosia (Licosa, Itália), Aglaope (parte aves e parte mulher), Parténope (rosto de uma menina).
O cinema e a TV também exploraram essa lenda através de diversas produções cinematográficas, entre elas: A Pequena Sereia (1989), Hook - A Volta do Capitão Gancho (1991), O 13º aniversário (1999), Aquamarine (2006), Piratas do Caribe IV (2011).
Em Luís Gomes há relatos da existência de uma Sereia, algo parecido com as lendas da “Odisseia”, “A Princesa Encantada de Jericoacoara” e a “Mãe-D'água”. De acordo com o relato de Joaquim de Bem Vinda ouvia-se cantos de sereia no vale do Letreiro, próximo a Baixa do Fogo, hoje município de José da Penha. Há depoimentos de que se trata de uma moça encantada:

A narradora (Raimunda de Juliana) conta que, durante as noites, uma princesa encantada aparece a vaqueiros e caçadores e com seu canto os enfeitiça. Eles não podem olhar para trás sob a ameaça de, se descumprirem, receberem como castigo ficar preso ao encanto da aparição. A princesa encantada vive numa pedra que tem a forma de uma casa e está localizada nas proximidades da moradia da contadora. A cada sete anos, ao pé desta casa, se forma um lago, o que torna ainda mais encantador o cenário onde se passa a estória contada. Para a contadora, nessa pedra há uma riqueza que só pode ser desencantada por uma pessoa de bom coração, sem nenhuma ambição. Uma vez em contato com a princesa deve também guardar silêncio. Dona Raimunda é moça solteira, e conta que uma tia sua, também solteira, popularmente chamada na comunidade de moça velha, chegou a ver a moça encantada, mas como não soube guardar o segredo recebeu castigo de morrer meses depois (FONSECA; NETO, 2015, p.260).

A lenda da Moça da Pedra Encantada remete as narrativas orais de comunidades que preservam marcas de sua identidade cultural, de sua história, de suas vivências, de seus valores. A Moça vivia numa pedra em forma de casa com porta e janela, lugar que ainda existe próximo ao Bico da Arara.
Em conversa com Dona Raimunda, disse que além da Moça havia três casas encantadas. Duas foram desencantadas. No espaço onde havia uma das casas se formou uma grande fenda na pedra grande, de fora a fora até o chão. Ao pé dessa casa que sumiu, surgiu um olho d’água. Por fim, restou apenas uma casa. O local é conhecido de Letreiro por haver letras e marcas de sapatos esculpidas na pedra.
A fala de Dona Raimunda é substrato da voz comunitária e, por sua vez, de uma literatura mais vasta, construída e atravessada por muitas vozes, isto é, a memória coletiva formada ao longo do tempo. A ideia original da moça encantada tem uma aproximação substancial com as sereias épicas ou, de certo modo, com A História do Cavalo Encantado, de um dos episódios de “As Mil e Uma Noites”. O aspecto do feitiço relembra as bruxas e as feiticeiras do tempo medieval e, também, diversas vezes citado na Bíblia Sagrada. A ideia do castigo é recorrente em textos bíblicos, em histórias fabulosas de Esopo à La Fontaine, em peças moralistas.
A referência de que a cada sete anos, ao pé desta casa, se forma um lago, tem um caráter esotérico, ou seja, uma alusão ao oculto e secreto. Bayard (2002, n.p.) evoca esse aspecto interessante das lendas:

Se as sete esposas de Barba-Azul, ou os sete irmãos do Pequeno Polegar, as sete fadas da Bela Adormecida no Bosque, as sete filhas do papão, as sete mulheres do gigante podem se assemelhar aos sete dias da semana, o valor desse número é extraordinário. Encontramos as sete solenidades do Judaísmo, os sete ramos do Castiçal de ouro, os sete filhos de Macabeu, enquanto que Tóbis é o sétimo esposo de Sara. O Espírito Santo tem sete dons, a Virgem, sete dores, o evangelho sete demônios e sete anjos planetários. Temos ainda os sete sacramentos, os sete diáconos, os sete selos do Apocalipse, os sete pecados mortais, as sete virtudes, as sete cores do raio luminoso, as sete notas musicais, as sete maravilhas do mundo. Para Anne Osmont cada um dos sete planetas do Pater se aplica a um dos planetas que compõem a antiga astrologia enquanto que para os hindus a terra se dividia em sete planetas.

Desse modo, o número sete citado por Raimunda de Juliana não é aleatório e nem casual. É uma escolha com referências simbólicas e significantes no transcurso do tempo e do espaço, que ecoam e substanciam as narrativas lendárias e míticas na contemporaneidade.
Além disso, a ideia da botija, da riqueza que só é desencantada por pessoa de bom coração é bem familiar em histórias famosas, como a de Excalibur, lendária espada do Rei Artur, cravada numa pedra, sendo retirada apenas por aquele que tem nobreza ou é puro de coração. Da mesma forma, é possível uma intertextualidade com o coração puro de uma criança, com a água que forma o lago da história narrada e uma série de indicações religiosas, literárias e históricas.

Por fim, a Lenda do Letreiro é um universo simbólico e identitário de uma comunidade que mantém viva a sua práxis interpretativa de acontecimentos míticos e que se misturam a própria vivência de seus membros. Através da memória dos contadores e o gosto pelo contar, a fantasia e a literalidade permanecem presentes na vida da comunidade, trazendo dinamismo, emoção, curiosidade, sentido de grupo, sabedoria e excelentes histórias.