DIA DE DOMINGO

"Ver o sol amanhecer, E ver a vida acontecer Como um dia de domingo" Tim Maia.
Ao romper da aurora, do silêncio se faz a efervescência, a sinfonia de pernas que passam e de olhares que se entrecruzam. Não era simplesmente mais um dia, era um “imenso Domingo universal”, nas palavras de Machado de Assis. É assim, o centro dos negócios, das boas conversas e do noticiário semanal, na pequena e singela terra de Bom Jesus.
Uma festa popular, uma representação genuína do espírito democrático, um compêndio de cores, cheiros, sons, sabores e sensações. Venham fregueses! Como vai? Moça bonita não paga, mas também não leva! Olha a rapadura, é doce, mas não é mole não! 
Pelas ruas centrais um amontoado de gente que se mistura. Urbes, pracinhas, fazendeiros e ruralistas, mercadores e visitantes advindos das redondezas. Um espaço carnavalizado, multicultural, uma pequena subscrição das misturas, de nossa identidade anti-heroica.
Pelas beiradas da cidade um verdadeiro emaranhado de cordas e de animais amarrados as grandes árvores, como a Timbaúba que ficava por trás da padaria dos Irmãos Costa. Espaço que tinha, aliás, outras serventias, como a montagem do Circo e do Parque. Nas casas dos ‘cumpadres’, pessoas de exímia receptividade, lavava-se a poeira dos pés e do rosto, depois da caminhada ou cavalgada nas estradas de terra acinzentadas e vermelhas. Deixavam as armas brancas e o caga-fogo. Recompostos, realinhados, dentro dos conformes seguiam a jornada para a feira, para as praças, para os afazeres, para a Santa Missa.
No eixo social, a fábrica dos sonhos. Praticamente, não havia televisores, mais presente (ainda rarefeito) era o rádio. Tudo novo e tão comum. Caras novas, panos novos, ao menos com uma melhor fisionomia. Enquanto isso, na venda de Antônio Aquino, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, pracinha da FEB, os jovens se refrescavam com o “Kissuco” ou esquentavam a goela com a velha pinga. Vários eram os que jogavam sinuca no bar de Antônio Aquino, numa aparente boemia. Noutros points, o delicioso café e o doce quebra-queixo na banca de João Roquinho, a garapeira incansável de Bastião Pinote, Nô na venda de geleias e bolos, os rosários de coco catolé de Noêmia, o doce de banana de Seu Aristides.
Naquele tempo, produtos industrializados eram quase imperceptíveis. Do campo vinham a rapadura do engenho, o feijão e o milho, o doce na palha, a farinha e a goma das bolandeiras, os rosários de coco e aluás, as deliciosas tapiocas e beijus, o bolo de milho e mandioca, o café feito na hora. Quanta fartura!
Nas dependências do Mercado tinha a venda de tecidos de Raimundo Daniel (Uiraúna) e Gilfones, as confecções de Ritinha de Marcelino Vieira. Sem esquecer de Deusdete Soares, Gouveia e Marta Sobreira, Tutu, Nego de Pedim, Pedro Farias, Zé Henrique, João Conrado, Zé Ferreira, Carneiro da Sorveteria, Lourdes do Hotel, Audifax Bezerra, Isolda de Maurina, Corrinha de Geudipa, a barbearia em que trabalhava o chistoso Otílio Bezerra.
Conta-se, aliás, que Seu Otílio era o “Rei da Trollagem”. Certa vez Paulo de Basa foi cortar o cabelo e levou apenas 50 centavos, dizendo que pagaria o restante depois. Sem problema. A tesoura cantava! Ao fim, apenas metade havia sido aparado. Paulo questionava: “E a outra metade?”. O barbeiro propiciamente dizia: “Quando você trouxer o restante do dinheiro faremos a outra metade”. Quando trabalhava no motor da energia, os meninos vinham avisar dos fios que se chocavam e do consequente curto. Importuno, jogava um balde de óleo queimado nos meninos que iam embora como um raio. Em retaliação destravavam a espreguiçadeira e ao sentar-se era aquele tombo.
De volta, após breve digressão. Seu Marcos vendia joias, bijuterias e peças de tecido. Na feira os calçados mais comuns eram a Conga para as mulheres, e o Kichute para os homens, quase sempre na cor preta. Os álbuns de figurinhas da Copa era uma epidemia, a garotada eufórica para completar as figuras e ganhar os brindes e prêmios, mas a bicicleta nunca saía.
Há muitos anos “os quartos” do Mercado já foram ocupados, em atividades comerciais, por famílias tradicionais, a exemplo de Gaudêncio Torquato, o maior comprador de legumes e de algodão da serrania. Ainda, registra-se a figura distinta de Joca Claudino, Ananias Vieira (Casa Vieira), Anésio Leite, Manoel Firmino, José Fernandes da Silva (Zéu Fernandes). Zéu que começou a vender, inicialmente, vassoura, vinagre e aguardente. Depois resolveu mudar para o ramo de tecido.
Algumas narrativas dão conta que as primeiras atividades de comércio na Serra de Bom Jesus aconteceram no século XVIII, nos primórdios de sua história, nas imediações do sítio João Ribeiro, próximo ao Sítio Coati. Comboieiros e Tropeiros traziam tecidos, louças, talheres, alimentos, miudezas, para serem vendidos. Na chegada com os produtos, a forma de avisar para as redondezas era através de uma Roqueira, um pedaço de ferro maciço com um bojo repleto de pólvora, farinha e barro vermelho que produzia um estrondo de grandes proporções. Era o meio de comunicação com as comunidades de Luís Gomes, Riacho de Santana, Marcelino Vieira, Varzinha (Rafael Fernandes), Água Nova, Belém (Uiraúna), Tenente Ananias... A moeda corrente era prata e ouro, não havia cédulas. Tinha o Vintém, Xexém, Terres, Pataca, Réis. Muitas moedas tinham a expressão “In hoc signo vinces”, que significa: “Com este sinal vencerás”. Dessas atividades surgiram, segundo depoimentos, quatro cidadãos ricos, eram eles: Laurentino, Manoel Gomes, Cândido Vieira e Vicente Dantas. E lembrar que, na cidade, a primeira vez que a feira livre aconteceu foi em 04 de setembro de 1915. Uma tradição de longos anos.
Na década de 70, a feira livre era bem diferente dos dias atuais. Começava bem cedo no Mercado Público. Tudo era compartimentado, cada qual com seu espaço, naquele tempo, muito concorrido. Enquanto os adultos faziam suas compras e passeios, os meninos mais espirituosos roubavam bugigangas, colocavam um espelho na ponta do pé para ver por baixa da saia das donzelas. Uma travessura sem precedentes.
Às 10 horas, quando tocava a chamada para a cerimônia eucarística, o mercado era fechado e todos os que estivessem dentro eram obrigados a sair, inclusive os comerciantes, avisados pelas batidas de um martelo num pedaço de trilho férreo. As portas eram fechadas e só eram reabertas no final da missa. A Santa Missa na Matriz de Senhora Santana era um dos grandes momentos, se não o maior, naquele tempo. Ainda podiam-se ouvir algumas palavras em latim. O hino da padroeira era o mais festejado, o mais laureado.

HINO DA PADROEIRA
Ó Santana gloriosa
De Maria Mãe querida
Pedimos que nos socorra
Nos trabalhos desta vida (bis).
.....
Ó Santana gloriosa,
Mãe da Mãe do nosso Deus.
Fazei que não seja ingrata
Minh’alma aos favores seus (bis).
.....
Ó Gloriosa Padroeira
Esta graça daí também
Que um dia no céu cantemos
As vossas glórias amém (bis).

Domingo era assim, um dia de festa, de fortalecimento de vínculos, um convite ao entretenimento, a possibilidade de se ganhar um dinheirinho, de reavivamento da fé, de quebra da rotina e monotonia da semana. 
No dia seguinte, só se ouvia, pelos quatro cantos, o tinir do martelo na enxada: Trim, trim, trim... Um sinal inconteste de que a retomada das atividades laborais daqueles dias se reiniciava. Hoje praticamente não se ouve tal estampido, é mais comum pipas, baldes e carrinhos de mão.