A DITADURA DE PADRÕES, MODELOS E ESTILOS

Vivemos a ditadura dos padrões, em uma sociedade amplamente massificada, num contexto com marcas profundas e modeladoras do capitalismo, consumismo, individualismo, desvalorização do ser humano e degradação dos recursos naturais.
Evidentemente, que há também os aspectos positivos, o estímulo à produtividade, à geração de emprego e renda, incentivos à imaginação e à inovação, o estímulo da competitividade e à livre concorrência.
Verifica-se, em contrapartida, movimentos contrários a essa pressão pelo mesmo, pela forma, pelos manuais de estereótipos. Alguns exemplos mais contundentes a citar: os naturalistas, as modelos plus size, os minimalistas, os ecologistas...
O importante é ser aquilo que você, conscientemente, se identifica, se sente bem, se conecta profundamente. Seja punk, hippie, caipira, vegetariano, antialcoólico, miserável (estilo de vida), seja o que for...
Diante da constatação de elementos positivos e negativos do atual sistema econômico, social, político e cultural em que vivemos, a carga negativa atua principalmente sobre o lado emocional, psicológico, na esfera dos valores morais e éticos.
É nesse aspecto que preocupa. Muitas pessoas se deixam levar pela avalanche dos modismos e preceitos em que nada condizem com a harmonia, a generosidade, a simplicidade e a paz que a alma necessita. O mundo é um grande caos, principalmente nas grandes cidades. As crises se multiplicam num planeta globalizado, tecnocientífico, que empurram as pessoas para uma vivência conturbada, fantasmagórica, destituída de sentido, de esperança e de perspectivas de satisfação.
Se observarmos a marcha do desenvolvimento, que põe no trono o capital, juntamente com elementos midiáticos, a publicidade e o poderoso discurso em torno de certos conceitos e modelos, continuam a imperar sobre o poder de escolhas de boa parte da humanidade.
A mídia, por exemplo, com sua longitude e globalidade, tornou-se um dos mais poderosos elementos de massificação e manipulação de desejos, gostos e vontades. Ela vem, há anos, ditando as regras do jogo, o que consumir, o que privilegiar, o que valorizar...
De modo peculiar e parcial, olhando por esse ângulo, grande parte das pessoas não se questionam e não respeitam muitas das escolhas que acontecem em sociedade, seja elas preferências de consumo, de estilo, de comportamento, de forma a respeitar a originalidade, opcionalidade, situacionalidade, a simplicidade...
Os modismos e os padrões têm uma força avassaladora sobre as pessoas. Não deveria, mas têm. Já pensou nos jovens que não vestem ou calçam as marcas prestigiadas? Nem pensar em estar acima do peso, senão o mundo desaba, as pessoas se afastam, o bullyng entoa ‘cânticos diabólicos’. As máximas de beleza, status, glamour, luxuria, festa, prazer, show, público, exposição estão mais latentes do que nunca. Nesse caldeirão fervilhante, de entretenimento e volume máximo, de explosão de cores, de atrativos sedutores, o questionamento e a reflexão crítica, pragmaticamente, perdem sentido e direção.
A sociedade e seus padrões tolos, estúpidos e impositivos. Quando nos referimos a “sociedade, evidentemente que não é uma generalização, mas algo intensamente presente. Alguns padrões se modificam, se reorganizam com maior facilidade do que outros. A beleza é um deles, com suas medidas, cores, silhuetas, simbologias, sacrifícios e exclusões. Pobre dos idosos, quase sempre um ponto fora da linha, seja em termos estéticos ou de inserção valorativa no mercado de trabalho. E pensar que em muitos países asiáticos são os mais valorizados, os mais respeitados.
A alienação segue dentro dessa cultura de massa, que também fora conhecida como indústria cultural. O interesse, pois, é de homogeneizar, dizer o que precisamos para viver bem, para sermos felizes. Como se nós, a partir dos nossos valores e pensamentos, não pudéssemos decidir por conta própria. De fato, muitos não sabem decidir, apenas obedecem como zumbis, a marcha das “tendências”, dos ditames presos a ideias e informações (subliminares ou não) de controle de vontades e desejos.
Tudo ao redor força essa persuasão ou manipulação. Símbolos, propagandas, cartazes, telas, outdoors, meios de comunicação em massa, por todos os lados, a apresentação de manuais de comportamento, de felicidade, de adequação. As empresas e até multinacionais fazem pesquisas de padrões de comportamento, as novas tendências de consumo e repassam um produto final para a indústria de massa. E abrimos a felicidade, por exemplo, com a “Coca-Cola na mão!
Os padrões parecem inundar a tudo e a quase todos. Questionar parece nadar contra a maré. O mundo fashion, o espetáculo, o último modelo, a grife, a prêt-à-porter, o requinte, o status são peças ou instrumentos valiosos, dentro de um discurso performático e diferenciador. Para ampliar essas questões, o filme “O Diabo veste Prada” possui uma excelente arguição.
A cultura de massa produz esses efeitos, distorce identidades, embriaga a mestria da ação espontânea, inibe algumas raízes linguísticas e alimentares, incute para uma recepção de passividade, sendo fatores importantes para a inserção de novos códigos na formação cognitiva, atitudinal e discursiva.
Precisamos quebrar os padrões idealizados pelas forças capitalistas, homogeneizantes e manipuladoras. Até quando seremos a “Geração Coca-Cola”? Quem disse que ficar mais gorda deixa a pessoa menos atraente? O programa Malhação disse de forma explicita; e quantos não dizem de forma indireta? O prêmio do Oscar, ano passado, não teve um negro vencedor. Isso quer dizer alguma coisa? E o que dizer das repetidas cenas de apologia a banalização do sexo em canais de TV, que se dizem defensoras dos bons costumes? E essa onda de politicamente correto? Dizer que uma mãe não pode amamentar seu filho na rua?
Parece existir uma oficialidade para que os momentos felizes floresçam. Não deveria ser hegemônico. Às vezes, fazemos firulas, cenários, aplicamos brilho e cor, vestimos o que há de melhor, reunimos o que parece ser mais relevante para simbolizar os momentos de felicidade, de puro êxtase, de excelência. A hegemonia da felicidade deve ser encontrada na simplicidade, na espontaneidade, na singeleza das coisas. É uma felicidade sem pompa, sem invólucro, quase sem preço algum.
É tão ruim ser classificado pelas roupas que vestimos. É tão chato reproduzir comportamentos para ser aceito por um grupo ou estrato social. É tão improcedente acumular riquezas materiais com propósito de ostentação. É tão triste ver as pessoas sem opinião própria, abdicando daquilo que realmente acreditam.  
A vida está cheia de protocolos a serem seguidos. A felicidade, em parte, simbolizada em padrões fechados. O prazer intimamente vinculado a coisa fácil e descartável. A beleza representada na fome, no bisturi, no manequim. A mídia e as empresas que vendem essas ideias, lucram com muitos sonhos frívolos.
Não sei que escolhas faremos, dia após dia, sejam em relação ao que for. Podem ser boas ou não. Podem ser alvo críticas, menosprezadas ou simplesmente encaradas com indiferença. Tudo isso faz parte. O que não pode deixar de acontecer, principalmente sobre aqueles que são significativas no contexto particular ou social, é passar pelo nosso crivo, pela nossa análise, no intuito de garantir a atuação de nossa capacidade cultural, moral, reflexiva e, principalmente, intelectual.