OS PENITENTES E O RESGATE DA FÉ

O Distrito São Bernardo localizado a 5 km da cidade de Luís Gomes, que integra a Diocese de Mossoró, há anos trás em sua história a memória dos penitentes, uma confraria secreta com rituais de fé, sangue, misticismo e simplicidade.
Tudo começou no século passado, entre os anos de 1930 a 1935. Surgia um grupo de homens que iniciaram a escrita de uma das mais importantes seitas religiosas do município e região: Os Penitentes de São Bernardo.
Através de uma religiosidade peculiar, essa irmandade buscava o bem comunitário e o fim da escassez, usando para isso dois instrumentos fundamentais: o corpo e a “disciplina”. A disciplina é um instrumento cortante feito com latas ou ferro velho e um cordão para segurar. O instrumento era usado para a autoflagelação, em nome da contrição, purificação e da prosperidade e bem-aventurança da comunidade, principalmente em época de escassez de chuvas e provimentos.
O grupo era formado por cerca de 30 a 50 homens de toda a região, sendo coordenado por um chefe conhecido pelo o nome de “decurião”. A autoflagelação acontecia nas casas das famílias ou no Monte Tabor, um lugar em forma de lajeiro, no alto da comunidade, assim denominado em homenagem ao monte onde Jesus se transfigurou, tal como relatado na Bíblia.
Os penitentes sempre saíam de casa ao cair da noite, por volta das dezoito horas, e só voltavam depois da meia-noite. Era neste horário que terminavam as 12 excelências, hinos a Nossa Senhora cantados pelo decurião durante o ritual de flagelação.
Muitas vezes, o Alto do Tabor ou as casas em que se reuniam ficavam cheios de sangue, de forma que o líder indicava o momento de parar, quando entendia haver muito sangue derramado. O decurião tinha consigo um cruzeiro feito de madeira, o qual era carregado nas caminhadas do grupo. Segundo Selma, moradora do Distrito de São Bernardo, “sempre que eles terminavam os rituais de flagelação e mortificação, chovia na comunidade”.
Os membros do grupo, à época, não diziam a ninguém que eram penitentes, porque acreditavam ser pecado, um segredo que era revelado somente as esposas. Graças a boa memória de Dona Antônia Jorge, “Mãe” do distrito, descobrimos: “Os penitentes saíam à noite todos com as camisetas amarradas na cabeça, para que ninguém descobrisse quem eram, e se ouviam cantando as excelências de longe, cantavam e choravam”.
Hoje ainda existem penitentes vivos, porém não podemos dizer quem são, porque a crença diz:  quem revelar o nome dos penitentes, receberá os seus pecados. Anos depois foi erguida no Alto do Tabor uma Igrejinha dedicada aos corações de Jesus e Maria. No ano de 2007, por ocasião das Santas Missões Populares em nossa Diocese, tivemos a alegria de receber na “Terra dos Penitentes” as ilustres presenças de Dom Mariano e do Pe. Flávio Augusto, que ficaram surpresos com a história e o exemplo deixado pelos Penitentes.
Vários pesquisadores, universitários, historiadores sempre visitam a nossa comunidade, surpresos pela história aqui contada. Com certeza os penitentes sempre serão lembrados, porque sempre pediram a Deus por nós, através dos rituais de flagelação e mortificação.

Texto-base: Francisco Jacó de Oliveira, missionário de São Bernardo - Luís Gomes/RN.
Edição e adaptação: Antonio Roberto Fernandes do Nascimento.