UM MINUTO DE SILÊNCIO

No dia de ontem vimos nos noticiários e nas mídias em geral a divulgação de uma extensa lista que envolvem o mais alto escalão político do país, investigados na Operação Lava-Jato, com base em delações de ex-executivos da Odebrecht.
A lista envolve oito ministros de estado, três governadores, vinte e quatro senadores, trinta e nove deputados, um ministro do TCU e mais outros vinte e três implicados. O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Edson Fachin, relator da Lava-Jato, autorizou abertura de inquéritos solicitados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
Em resposta, os envolvidos alegaram inocência, que confiam na justiça, que são discursos caluniosos, além de clichês como consciência tranquila, doações de campanha aprovadas, indignação com os delatores e silêncio como resposta.
Parece leviano demais tantas acusações e a diversidade de detalhes sobre diferentes pessoas, que ocupam cargos e funções importantes no país, sem contar uma série de outros que englobam as apurações. Seria os delatores roteiristas de cinema, autores de ficção ou executivos com tendência sociopata? Seria um desperdício! Improvável...
Não resta dúvidas de que as irregularidades, em proporções a serem esclarecidas, ocorriam na obscuridade. Ninguém é tolo de prontamente confessá-las, mas já esperavam a “fumaça branca”. A ganância e a fome de poder esfacelam a política brasileira, em que os representantes do povo se prostituem¹ da forma mais vil, transvestidos de terno e gravata.
Perplexidade é o nome do sentimento que domina o país. Crise, reformas, revoltas, dúvidas, incertezas, destroços. A governabilidade do país em xeque. A classe política em pânico. O povo atônito. Lavajatianos, ilegítimos mandatários, seja por ordem moral ou jurídica, já se acostumaram com o cheirinho do óleo perobiano.
Não há como um país naturalmente rico, como o Brasil, se desenvolver com tanta corruptibilidade. É um pulhismo crônico e metastático. A Fiesp projetou que até 2,3% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) são perdidos, a cada ano, com práticas corruptas, ou seja, cerca de R$ 100 bilhões.
Diga-se que esse crime organizado também invade a população e as grandes e pequenas empresas do Oiapoque ao Chuí. Já imaginou quando dinheiro corrompido em licitações, em níveis federal, estadual e municipal, em que o menor lance não é materializado, no jogo de cartas marcadas, em que as empresas ou pessoas jurídicas realizam o objeto licitatório aquém da qualidade necessária. 
Sem esse mar de corrupção o país poderia entrar, definitivamente, no trilho do desenvolvimento. Não estaríamos discutindo reforma previdenciária, lei das terceirizações, crise dos estados e municípios, a ineficiência dos serviços públicos essenciais e tantas outras coisas. A agenda político-social seria outra.
É evidente que a “sangria” torna o país anêmico e inepto para uma mudança de patamar. Então, entendemos, mais claramente, porque tantos palacianos queriam exterminar a Lava-Jato, qualificar Sérgio Moro como alguém que cometia abuso de autoridade e, certamente, porque o Congresso destruiu as 10 medidas contra a corrupção, sem dó nem piedade.
Esses “meninos”, parafraseando o senador Magno Malta, são danados, são traquinos. Mexem com o que há de mais sagrado para o povo: a consciência, a dignidade, a cidadania. A corrupção ativa, passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro engendrados pelos políticos afetam diretamente a vida das pessoas de formas diferentes, com intensidades diferentes, pois retiram recursos, por exemplo, das urgências hospitalares, das escolas e universidades, da segurança pública, da mesa das famílias. Tal ilicitude pode, consequentemente, retirar vantagens trabalhistas, diminuir investimentos e tirar a vida de cidadãos.
A solução a longo prazo e que enfrenta propósitos ideológicos de dominação social é educação de qualidade e libertária. Por hora caberia um minuto de silêncio, em momento fúnebre. Após o luto, as ruas é a resposta e o caminho, a voz gigante da nação novamente precisa abalar as estruturas.
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¹. Seria uma ofensa enorme comparar, avulsamente, a corruptibilidade dos políticos (de forma ilícita, ilegal, imoral) com as profissionais do sexo (de forma lícita, livre e opcional).