A DEBULHA E OS PIOLHOS

Luís Gomes/RN – Há algumas décadas a sociedade luís-gomense se situava num contexto peculiar, com núcleos familiares mais definidos, com um ritmo funcional simples, distante de aparatos e mecanismos tecnológicos, num cenário com ares bucólicos e de acentuada placidez.
A urbanidade de outrora rutilava uma estação de serenidade, uma aurora provinciana, tipicamente interiorana, agrícola, o povo em sua lida diária, os afazeres primários davam o tom e o tino na cotidianidade.
A vida simples daquela época nos traz referências importantes para a hodiernidade, para os dias atuais. A debulha é uma matéria doutrinal. Na tarefa, por exemplo, da retirada da casca do feijão, uma unicidade familiar se estabelecia, todos juntos no mesmo propósito, na partilha das dificuldades e do alimento, no aconchego da companhia e da conversa calorosa, nos ensinamentos e histórias contadas. E antes de dormir, a família orava unida...
A simbologia da debulha talvez seja similar a outras atividades tradicionais da Serra do Senhor Bom Jesus. O trabalho duro, mas compartilhado nas lavouras, uniam pais e filhos, lado a lado, suor e calos uníssonos. Os expedientes nas “bulandeiras” e nas casas de engenho representavam templos de glória, a festa da fartura, tempo de colher o que fora plantado. A compreensão da vida, do amor, da irmandade, da doação, da cooperação, da comunhão na sua forma mais natural e concreta.
Por incrível que pareça, os piolhos também tinham sua importância. Assim como disse o Pr. Mário Botão, a pedagogia dos piolhos também aproximava pais e filhos, como era bom ter piolhos. O filho se deitava no colo terno da mãe, sentia o cuidado e a atenção, enquanto era acariciado por mãos ágeis e incansáveis. O filho era tocado pela mãe, momentos tão preciosos. Muitos lares falta o toque, o abraço, o elogio, respeito, palavras. Por isso, mesmo repulsivo, quanta falta faz os piolhos na presente geração...
A vida era árdua, mas deveras misericordiosa. Tudo acontecia num outro ritmo, em que a percepção, a atenção, a presença eram coisas marcantes. Quase sem pressa as coisas aconteciam. De repente, a pequena cidade serrana foi se modernizando, engolida pela revolução tecnológica e a entusiasmada globalização. O boom da internet nos anos 90. Como um click o mundo se transformou. Pouco a pouco fomos percebendo que a família enfrentaria novos desafios, lacunas emocionais e relacionais seriam abertas, em alguns casos, escancaradas.
Aos poucos a debulha, as histórias nas calçadas e até os piolhos foram desaparecendo. A força do entretenimento, atividades e ócios passaram a preencher todos os espaços... Brincar de roda virou excentricidade, raridade. E onde devem estar dedo mindinho, seu vizinho, pai-de-todos, fura bolo e cata piolho?
Hoje uma das cenas mais corriqueiras em um lar é os pais com a tevê ligada (anestesia cerebral, massificação e falta de diálogo) e os filhos noutro ambiente com os celulares e dedos frenéticos. A cena poderia ser diferente, mas o que se percebe é a falta do diálogo, o distanciamento, o estranhamento, a ausência do olho no olho...
Uma pesquisa recente mostrou que aproximadamente 87% dos jovens preferem se comunicar por mensagens de texto do que pela velha modalidade do cara a cara. As gerações Y e Z são expert em tecnologias, com forte interatividade virtual, com perícia multitarefa, mas com diversos sinais de isolamento, distanciamento, inabilidade para resolução de conflitos, ansiedade e sensação contínua de incompletude.   
Os bits, bytes e pixels estão substituindo as pessoas? Os seres humanos estão se transformando em robôs virtuais? Até aonde iremos com a “supremacia” do ciberespaço? Precisamos debulhar mais. Precisamos de piolhos. Precisamos nos relacionar mais no mundo real...
É preciso dizer para nós mesmos: Navegue menos, viva mais!