BONFIM DA PRAÇA

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida (Vinicius de Moraes).
Recordo-me com firmeza a figura de um homem irrequieto, com certa dificuldade no caminhar, óculos tipo “fundo de garrafa” protegido por um cordão que dava a volta por trás do pescoço, mãos expressivas de quem muito batalhara na vida. Vestia-se com trajes típicos, camisa social de maga curta, calça social simples. Em ocasiões especiais, não dispensava um bom terno e gravata.
Voz arrastada e levemente rouca causava alguma dificuldade de entendimento, principalmente quando pronunciava as palavras de forma mais contínua e apressada. O boné quase nunca saia de sua cabeça, escondendo parte dos cabelos já esbranquiçados e da fronte. Rosto com linhas marcadas e olhar quase melancólico. Era o nobre e inculto Bonfim Alves Feitoza.
Um sujeito idiossincrático. Um exemplar único com trejeitos e manias inconfundíveis. Com um jeitão caricato quase sempre mantinha a tranquilidade dos bons costumes, mesmo com os pândegos e chateadores de plantão.
Muitas vezes se refugiava na arte e no entretenimento para vencer a rotina, para reaquecer os sentidos da existência. Tornou-se um grande sonhador, um artista da terra. Sonhava com o sucesso, com uma vida melhor, com um mundo melhor...
Contaram-me, certa vez, que Bonfim, mesmo com escassos recursos, com a proximidade das festividades natalinas, gastava todas as economias com presentes e brindes. Vestia-se de Papai Noel e fazia a alegria de muitas crianças. Um ato de espírito elevado, que revelava a sua generosidade e empatia.
Cuidava da Praça Tenente João Felipe com o maior zelo do mundo. Seria para ele o Jardim do Éden. Sempre verde, com os pés de Groselha, canteiros e gramados bem tratados. Espantava os meninos traquinos que tentasse violar aquele lugar extraordinário. Era um fiel vigilante e zelador daquele largo. Foi delegado (autarquia que lhe rendeu algumas chamuscadas de alguns hostis) da cidade imputado e designado por Jáder Torquato que tinha por ele grande amizade.
Um aventureiro que poderia ser um Dom Quixote de La Mancha, um Chicó, ou quem sabe um famoso cantor. Um polivalente. Fã incondicional de Sidney Magal fazia apresentações imitando o ídolo. Mesmo com a excentricidade e extravagância era um showman. Justamente. Desse lado folclórico e debochado surgiram algumas pilhérias, anedotas e brincadeiras com a sua pessoa.
Veja essa patuscada. Movido por forte paixão e incentivado por Jáder, Bonfim passava o dia concentrado para se apresentar como Sidney Magal no Mercado, com palco, figurino e tudo. Vestia-se com uma camisa amarela de babados nos punhos, calça de cetim preta com fivela de strass e sapato com salto carrapeta. A canção mais pedida pelos partidários e uma das preferidas dele tinha como refrão:

Ohhhh, eu te amo
Ohhhh, eu te amo meu amor 
Ohhhh, eu te amo
O meu sangue ferve por você.

Evidente, por não saber as letras de có ou pelas interrupções dos presentes quase nunca concluía a canção. Das interferências dos mariolas tem-se notícia de arremesso de tomates e ovos, disparo de traques, derrubada do palco e outras mais. Uma joça total. Risos longevos. Mais parecia o show dos Trapalhões.
No Estádio Nia Torquato, Ismar Ferreira que se abnegava pelo futebol da cidade, comandando o 26 de Julho Esporte Clube, dizia: “Ei, cara de atoleiro!” Bonfim respondia: “Sou cara de ‘torero’, mas num sô ladrão de perativa” (cooperativa). Apenas uma forma de gracejo à moda masculina?
Além de tudo, Bonfim foi o protagonista do filme “As Trapalhadas do Lampião”, um longa metragem eminentemente cômico. Algo impensável para época e para os recursos tecnológicos aqui existentes, produzido por Kodak Vídeo Foto e dirigido pelo luís-gomense José Nairton da Silva, filho do fotógrafo Francisco Vieira da Silva, Seu Tintim.
As gravações aconteceram no sítio ‘Butiquim’, na Lagoa de Cima e na Vila Aparecida, sempre nos finais de semana. Este último cenário representava o vilarejo de Jeremoabo/BA. Bonfim representava Lampião e Zeneide, Maria Bonita. Manoel Catingueira era Jararaca e Deda, Pinga Fogo. Linaldo era Curisco e Zé Moreno, Mergulhão. Ainda tinha Marcos (Cajarana), Joaquim (Gavião), Negão (Sabonete), Francisco Fontes (Sipó de Fogo), Francisco de Bil (Antonio de Graça), Tuica (Labareda), Guerreiro (Dois de Ouro), Zezão (Alfinete), Toba (Barra Mansa), Francisco Jesus (Trovão), Vadim (Candieiro), Neca de Luca (Chá Preto), Marcondes (Cobra Verde), Satonha (Joana Bezerra), Curica (Feliciano) Domingos Neto (Tenente Zé Rufino), Jackson Alves (Inglês), Ananias (Governador), entre outros.
Numa das gravações, um cangaceiro pegou uma espingarda para atirar no bando inimigo, mas para surpresa geral, o disparo foi real, com chumbo para valer. Para o bem dos atores o tiro foi um pouco para cima. Na madeira de uma árvore próxima se via a marca vivaz do estampido.
Diz-se também que nos ensaios para as gravações do filme, narrativa de bastidores, ocorreu uma cena engraçadíssima. Naquele momento, pediu-se a Bonfim Alves, estrela da produção cinematográfica, para dizer: “Eu sou Lampião, o maior cangaceiro do Cangaço!” Depois de meia hora de ensaio para decorar o texto, perguntaram: “Bonfim, decorou?”. Conferiu: “Sim”. Nairton então disse: “Gravando!”. Bonfim, compenetrado, em alto e bom som retumbou: “Eu soi (sou) é Lampião, o maior cangueiro (cangaceiro) do Cangaço!” Ninguém se segurou... O episódio foi adicionado ao filme, aproveitando os “cacos”, ou seja, os improvisos das cenas.
Enfim. Alguns anos depois ele nos deixou. Sem Bonfim o município perdeu um pouco da graça, da genialidade e da arte. Deixou-nos aos 54 anos, quando as cortinas do sol se abriram, lá estava ele, frígido, cadavérico, sobre um banco da calçada.