A POESIA E A CULTURA POPULAR

Luís Gomes/RN – O encontro de pessoas espirituosas e criativas constitui um rincão de boas prosas, mesmo que regado a versos e melodias, o que de encanto tem muita graça e magia. Da reunião entre Joaquim de Bem Vinda, Marta Sobreira, Raimundo Nonato e Caninana, na cidade de Uiraúna/PB, foi o suficiente para que as “portas do céu” da criatividade se abrissem e a força poderosa da poesia roubasse a cena.
Entre os amigos um fato notabilizou-se: a engenhosidade, a esperteza e o olho vivo de Caninana em relação ao comércio, para obter a máxima lucratividade. Mesmo assim, um cidadão de bem. Se preso fosse Caninana teria uma “ficha longa” de transgressões e necessitaria de um defensor irrepreensível. Deixaram a imaginação fluir. A partir dessa suposição, Raimundo Nonato sugeriu a Joaquim que fizesse o papel de advogado para ver se podia soltar o comerciante. Prontamente aceitou e disse que para soltar o amigo, nessa afiguração, seria necessária uma boa estratégia e argumentos irrefutáveis, porque o mais complicado era ele, o comerciante.
Pensou e resolveu: “Não tem jeito, assim, pra soltar Caninana aqui não. Eu vou ter que ir ao céu pra vê se solto lá”. Só que para ir ao céu, o defensor tinha que morrer. O sonho foi a sua chave do céu. E assim se sucedeu:

Eu sonhei um sonho
Que contá-lo nem podia,
Sonhei com uma pessoa morta
E era eu mesmo que morria.
E pra o céu eu subia, subia e subia,
E lá em cima eu olhava
Num controle de um painel
E vi uma reunião como que fosse um coquetel
Me encontrei com São Manuel e pergunto: “É festa?”
Ele me disse: “Só de bebida boa e comida que presta!”.
E eu olhei e vi uma santa desfilando na varanda
E brechava pela cortina e gritava pras outras:
“Abra a porta do céu que lá vem Joaquim Bem Vinda!”
Aí nisso eu me sentava no tribunal de Jesus,
Em um bonito cadeirão
Para salvar todo mundo
Com todos os poderes na mão.
Passei menos de uma hora
Salvei mais de um milhão.
Aí Cristo me pergunta: “Aonde mora o cidadão?”
“No Uiraúna, terra boa, homem de bom coração
A quem eu também queria pedir abissovição (sic)...”
Mas vi um santo gritar forte: “Essa não!”
Eu não sei se era são Pedro ou se é São João,
Mas lá se for para soltar ladrão,
Pode soltar todo mundo, mas o Caninana não.

Joaquim de Bem Vinda, filho de Luís Gomes, a partir dos versos de improviso, conseguiu arrancar, naquele momento, as risadas mais genuínas. Caninana adorou os versos, mas a partir de então, a sua fama correu aquele sertão, de um homem muito vivo, mas que os santos não gostavam não.
Ainda hoje Caninana pergunta: “É um cafinfim feio! Rapaz, e a minha situação, como é que se encontra?”. Joaquim responde: “Pior, você não deixa de roubar, né!”.
É justamente esse jeito debochado, meio que sem polidez, muito peculiar à identidade brasileira, de uma verve pitoresca. Para o trovador popular e matreiro, quase tudo é matéria de inspiração poética, tendo como elemento instigador, muitas vezes, a velha, modesta e boa pinga.
Pois bem, veja outra que aconteceu. Joaquim tinha deixado a mulher e se topou com Marlenor de Antônio de Hermógenes, que em se tratando de mulher também não estava numa boa situação. Ambos ‘puxando’ umas bicadas, um ritual quase cabalístico, no qual surgiam palavras mágicas de improviso, pelas quais podia transfigurar o espectro da rotina.
Eis que vem. Kaboom! Surge como uma explosão que implode os corações. Melhor ri do que chorar. Solicitado pelo colega para compor, dizia “Macaco (era assim que se referia a Joaquim), faça uns versinhos de nós! Vai!”. “Hum, não vou fazer não...”. “Faça, faça...!”. “E se eu fizer do jeito que nós ‘tamo’ você não leva a mal não?” Marlenor confirmou: “Não”. Joaquim se deu por convencido e disse: “Apois (sic) lá vai dedo”:

Ali no Sítio Coati
“Fomu” nascido e criado,
Mas eu num sei o motivo
“Pru” destino ser mudado,
Eu já fui rico fazendeiro
Grande comprador de gado,
Católico, religioso
Na Igreja fui casado,
E hoje “nóis” paga os pecado:
Que é você na lei dos “corno”
E eu dos “amancebado”.

Pilhérias a parte, a poesia popular costumeiramente é astuta, observadora, crítica, fazendo refletir detalhes e nuanças que, muitas vezes passam despercebidas por olhares não menos argutos.
A poesia popular se banha em diversas fontes, até as mais sombrias. Assim aconteceu com Zé Joaquim, que viveu por muitos anos no Sítio Lagoa do Mato, lugar muito aprazível. Sua história é parecida com a de outros Zés, um nome tão comum, sem brasão, uma vida sem glórias. Um homem sem grandes talentos, o prestígio e o império que lhe sobravam era a própria existência.
Até que um dia nem isso resistiu. Deixou a vida sem alarde, sem recomendações, sem declamações, sem acalentos, sem legados, sem aplausos, sem flores, sem quase nada.
Esse caso poderia ser uma continuidade das crônicas jornalísticas da gaúcha Eliane Brum, em A vida que ninguém vê. Semelhanças com aquelas histórias reais pinceladas de literalidade. Aproximação ainda maior com o texto “Enterro de Pobre”, que em um trecho diz: “É necessário compreender que a maior diferença entre a morte do pobre e a do rico não é a solidão de um e a multidão do outro, a ausência de flores de um e o fausto do outro, a madeira ordinária do caixão de um e o cedro do outro. Não é nem pela ligeireza de um e a lerdeza do outro. A diferença maior é que o enterro de pobre é triste menos pela morte e mais pela vida”.
Relata-se que Zé Joaquim só viveu com gente “mais ou menos”. Morou com Antônio Quinco Libânio, Antônio Martins, depois com Chico Bevenuto. E quando ele morreu, num fim de tarde, estava seu corpo deitado num canto do chão, sobre uma velha esteira de palha, coberto com um lençol. Logo veio a noite e a escuridão, o poeta imaginou aquela situação e lançou mão de três estrofes para contar a situação, a diferença entre o rico e o pobre e o poder da natureza:

A pessoa quando é rica
É coberta de beleza
Nunca tem pena do pobre
Da fome e da nueza
Nunca pensa em ser pequeno
E só magina na grandeza.
Mas não sabem que termina
Numa cama de tristeza
Da morte sente o funério
Vai viver no cimitério
Sozinha num casério
Na mais fria profundeza
Pra saber o quanto é grande
O poder da natureza.

Eu digo:
É uma casa de pobreza
Disso eu tenho a realeza
Vive tudo no escuro
Num tem uma luz acesa
Nem tem almoço nem janta
Nem tem cama nem tem mesa
E lá é tudo dum tamanho
Não tem quem fale em riqueza
Pra saber o quanto é grande
O poder da natureza.

Morre um rico de bravura
Deixa tanta doçura
Bota um pobre na amargura
E não sabe o que é o mé
Mas lá no mundo de Deus
Não tem santa num tem briga
Nem dança nem arrasta-pé
Só tem que cumprir a pena
Do jeito que Deus lhe der
Pra não ficar na tristeza
Mas sabendo o quanto é grande
O poder da natureza.

O poema de Joaquim Bem Vinda faz uma bela reflexão entre a vida e a morte, o material e o espiritual, o sagrado e o terreno. Nesse mesmo assunto Ariano Suassuna, em O Auto da Compadecida, através do personagem Chicó, também mostrou o quanto é grande o poder da natureza, fazendo a sociedade refletir um pouco mais sobre comportamentos egocêntricos, egoístas e individualistas: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”.
Na poesia é possível matar até a própria morte. O poder das palavras nos transforma em heróis, possibilita que nos tornemos outros seres, outros personagens, fazendo da criação e da imaginação aliados para uma viagem de aventuras e descobertas.
Assim foi. Joaquim contava que quando Dona Candinha (avó de Valter Sandi e mãe de Vicente Bevenuto) faleceu foi um sentimento geral, pois ela era uma pessoa muito querida. Quinze dias após o falecimento Joaquim sonhou com uma senhora preta, magra, feia, arrodeando a sua rede, perguntou: “Quem é a senhora?”. Ela disse: “Eu sou a morte”. “Mas aqui não tem ninguém doente”. “É, mas fui eu que levei Dona Candinha”! Depois do sonho, na manhã do dia seguinte, Joaquim olhava a mulher puxar as cinzas, compondo o fogo para fazer o café, então criou os seguintes versos:

Foi um sonho que sonhei
Agora de madrugadinha
Parece que tudo enfim
O meu pensamento advinha.
E nesse sonho eu vi a bruxa
Que levou nossa vizinha
E eu pra me ver livre dela
Rezava uma ladainha.
E no meio da forte prece
Me chegava uma santinha
Com o rosário na mão
E na outra uma espadinha.
E dizia: “Mata essa monstra,
Bicha cara de murrinha”.
E eu me cresci contra ela
E vejo o quanto eu sou forte
Acabei com seu esporte
Essa noite eu matei a morte
Que matou Dona Candinha.


A arte das palavras que converte a mais simples cena humana em um espetáculo de sons, rimas e significações que ultrapassam e ressignificam a realidade. Uma arte. Umberto Eco definiria: “o efeito poético como a capacidade que um texto oferece de continuar a gerar diferentes leituras, sem nunca se consumir de todo”.
* Texto publicado no livro Luís Gomes: a terra e o povo de Luís Gomes entre prosa e poesia”.
* Autoria de Antonio Roberto Fernandes do Nascimento.